RADITCHKOV, YORDAN




YORDAN RADITCHKOV

O real e o irreal convivem lado a lado em Yordan Raditchkov, sem quaisquer constrangimentos. É uma das muitas virtudes desse admirável escritor, possuídor do dom de um contador de histórias. Os contos têm a universalidade peculiar de toda a literatura fantástica mundial com laços naturais que nos lembram as histórias de Franz Kafka, Jorge Luis Borges, Gabriel Garcia Márquez, Julio Cortazar e, os brasileiros, Murilo Rubião e JoséJ. Veiga entre outros expoentes do realismo mágico universal. O contato com o texto de Raditchkov vai aos poucos levando o leitor, envolvido pela mestria da narrativa, a aceitar como normais situações inverossímeis: um mundo em que os peixes passam a morar em árvores, em que um hieróglifo desafia a inteligência (ou a estupidez?) humana, em que a Palavra se torna personagem ou, ainda, a incrível e mitológica história da migração dos verbludes (você já viu um verblude?), que deixaram a lua e vieram viver em nosso meio em tempos distantes, a tudo convertendo em areia.


LIVRO ESCOLHIDO – EDITORA THESAURUS


CONTOS DE TENETZ


Todos os textos do livro parecem realmente histórias contadas por crianças (ou para crianças), por demonstrar uma rica imaginação e pela forma natural com que fluem convivendo com o inusitado. O fantástico, ou mágico, faz parte da realidade e dela não se distancia por um fio sequer. No entanto, de maneira alegórica, atrai a nós, adultos, para investigarmos nosso modo de ver as coisas. Yordan Raditchkov nos encanta com seu humor até quando filosofa, à maneira dos camponeses de sua terra: Quando tudo o mais cai de joelhos, a palavra é que nos socorre. (pág.29).Raditchkov mescla, então, entranhadamente, os instantâneos líricos, saídos das formas de vida e do espaço de sua Bulgária imaginária, à velha arte do contador de histórias, parece sempre fazer questão de afirmar que vem de um vilarejo, mostrando algo de um outrora ainda mais distante. Alguma coisa da atmosfera primitiva e mágica de um passado ancestral e da sabedoria oracular, a latência funda e a analogia estrutural do mito, na alquimia do verbo: (Em verdade lhes digo, a palavra arregaçou as mangas e fez também um moinho de fogo. Os nossos foram fazer farinha nele e todos admitiram que isso era já um verdadeiro milagre. A Palavra. Pág. 29) Mediante visões fugazes, instantes que têm a surpresa poética de uma epifania, se reata de repente a história perdida dos objetos e dos seres. Um leitor atento e minucioso notará ecos ou resquícios da literatura pós-simbolista na prosa modesta e despretensiosa de Yordan Raditchkov.

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