VONNEGUT JR. , KURT

KURT VONNEGUT JR.

Concluída a formação em Química, alistou-se no exército e lutou na II Guerra Mundial, uma experiência formadora para ele, como escritor. Após a Guerra formou-se em Antropologia. Foi muito importante para os movimentos de contracultura nas décadas de 1960 e 70, e alguns de seus romances/peças foram adaptados para o cinema. É autor de vários romances, ensaios e peças de teatro, entre os quais se destacam Player Piano (1952), Cat’s Craddle (1963), Breakfast of Champions (1973) e Galápagos (1985). Seu último lançamento foi "Um Homem sem Pátria, coleção de crônicas e pequenos ensaios".
No Brasil, praticamente toda sua obra foi lançada, de forma irregular, por várias editoras, como a L&PM, a Record e a Rocco.

LIVRO ESCOLHIDO - L&PM EDITORES

MATADOURO 5

Matadouro 5 conta a tentativa de um ex-soldado americano que lutou na Segunda Guerra Mundial e que assistiu ao bombardeio da cidade de Dresden de escrever sobre a experiência da guerra. O personagem por ele criado, Billy Pilgrim, é um americano bem de vida e interiorano que viaja no tempo, para outros planetas, e revisita diversos momentos da sua própria vida – sendo o ponto crucial da sua existência o episódio em que foi feito prisioneiro durante a Segunda Guerra, quando vivenciou o bombardeio da cidade alemã, em que morreram 135 mil pessoas – o dobro de mortes causadas pela bomba de Hiroshima.
O resultado desta inusitada história é uma narrativa inigualável, fantasiosa, sarcástica, engraçada, satírica, irônica, triste e cheia de sentido. Publicado primeiramente em 1969, em plena Guerra do Vietnã, Matadouro 5 foi classificado pelo conselho editorial da Modern Library um dos 20 melhores romances em língua inglesa do século 20. Embora seja conhecido como um dos principais romances norte-americanos antiguerra, nele Vonnegut oferece muito mais do que um libelo pacifista. Trata-se de crítica social da mais criativa, inclassificável e atual, da expressão de uma visão de mundo ingênua e desencantada ao mesmo tempo.

BANVILLE, JOHN

JOHN BANVILLE

JOHN BANVILLE nasceu em Wexford, Irlanda, em 1945. Seu primeiro livro, Long Lankin, foi publicado em 1970. Depois deste, vieram Nightspawn, Birchwood, Doctor Copernicus (vencedor do James Tait Black Memorial Prize, xem 1976), Kepler (que recebeu o Guardian Fiction Prize, em 1981), The Newton Letter (que foi filmado para a TV), Mefisto, O livro das provas (indicado para o Booker Prize, em 1989, e vencedor do Guinness Peat Aviation Award, no mesmo ano), Ghosts, Athena, O intocável, Eclipse e Shroud. Banville recebeu ainda um prêmio literário da Fundação Lannan. Atualmente vive em Dublin. O mar ganhou o Booker Prize de 2005, derrotando livros de autores como Julian Barnes e Kazuo Ishiguro.

LIVRO ESCOLHIDO - EDITORA NOVA FRONTEIRA

O MAR

Neste romance magnificamente escrito, vencedor de um dos prêmios mais prestigiados do mundo literário, o Booker Prize, John Banville mais uma vez constrói uma narrativa emocionante, trabalhando a linguagem como um grande artista. Em O mar, Banville conta uma história com vários momentos, na qual o narrador, Max Morden, procura viver o presente e o futuro no passado, na busca por recuperar-se da constante presença da morte. “A verdade é que tudo começou a se misturar, o passado, o futuro possível, o presente impossível.”

SHAKESPEARE, WILLIAM

 WILLIAM SHAKESPEARE
(Poeta e dramaturgo inglês)

23/04/1564, Stratford on Avon
23/04/1616, Stratford on Avon

Um dos maiores dramaturgos de todos os tempos, William Shakespeare foi o terceiro filho do casal John e Mary. Teve uma vida sem maiores problemas financeiros até os 12 anos, quando o seu pai, que fabricava tintas, bolsas e luvas de couro, faliu. A partir daí, William Shakespeare começou a trabalhar para ajudar no sustento da família. Mesmo assim, não deixou de ler autores clássicos, novelas, contos e crônicas, que foram fundamentais na sua formação de poeta e dramaturgo. Em sua juventude, estudou latim e começou a escrever logo após o seu casamento com Anne Hathaway. Na época, o dramaturgo tinha 18 anos e a sua mulher, 26. Tiveram três filhos: Susanna e os gêmeos Judith e Hamnet, que morreu aos 11 anos. A mudança radical em sua vida aconteceu quando deixou a pequena Stratford on Avon e foi morar em Londres, cidade onde escreveu as suas maiores obras. Em 1592, com menos de 30 anos, Shakespeare já tinha o seu talento reconhecido no teatro, tendo redigido pelo menos duas peças: "A Comédia dos Erros" e "A Megera Domada". O seu prestígio aumentou ainda mais em 1594, quando começou a trabalhar para a companhia de teatro "The Lord Chamberlain's Men". A arte dramática do poeta pode ser dividida em três partes. Na primeira, compreendida entre os anos de 1590 e 1602, Shakespeare escreveu comédias alegres, dramas históricos e tragédias no estilo renascentista. A segunda fase, que vai até 1610, é caracterizada por tragédias grandiosas e comédias amargas, o autor está no seu auge produtivo. A última parte, que vai até a sua morte, é marcada basicamente pelo lançamento de peças que têm o final conciliatório. Sua primeira peça, "Tito Andrônico", escrita provavelmente em 1590, já revelava alguns dos elementos shakesperianos: O texto era uma tragédia repleta de assassinatos e violações. Toda a sua obra, escrita em 20 anos, está presente em palcos e telas de todo o mundo. Quase quatro séculos após a sua morte, William Shakespeare é um dos dramaturgos mais encenados no planeta. O autor inglês escreveu cerca de 40 peças, entre tragédias (Otelo, Romeu e Julieta, Rei Lear); dramas históricos (Henrique V, Ricardo III); e comédias (Muito Barulho por Nada, Sonhos de uma Noite de Verão). Antes de Shakespeare, nenhum outro dramaturgo ou poeta havia mostrado a natureza humana em toda a sua complexidade: a paixão de Romeu e Julieta, a sua obra mais conhecida, o ciúme cego de Otelo, a ambição de Macbeth. Shakespeare também deve ser um dos escritores mais citados no mundo. Mesmo quem nunca leu Hamlet certamente conhece a famosa frase: "Ser ou não ser, eis a questão". Freqüentemente, alguns poucos estudiosos atribuem a Francis Bacon (1561/1626) e a Christopher Marlowe (1564/1593) parte de sua obra. No entanto, os pesquisadores que desconfiam da produção do dramaturgo não conseguiram provar as suas teorias e a densa obra de Skakespeare sobrevive pela excelente qualidade poética. Suas peças aliam uma visão poética e refinada a um forte caráter popular. Nelas, os crimes, os incestos, as violações e as traições são ingredientes para o divertimento do público. Shakespeare escreveu também poemas e mais de 150 sonetos que expressam frustração, agitação, masoquismo e homossexualismo.


LIVRO ESCOLHIDO – EDITORA EDIOURO

O MERCADOR DE VENEZA (L!)
Curiosidades sobre a obra
(por Bárbara Heliodora.)

Origem
A trama de O Mercador de Veneza é o resultado da mistura de duas outras de origens diversas, mas dotadas ambas de fortes características de narrativas tradicionais como os contos de fadas ou os do folclore. Uma escolha a ser feita entre três opções, duas erradas e uma certa - e que tanto podem ser objetos quanto pessoas - tem sido apresentada em incontáveis manifestações com toda espécie de variantes, como por exemplo, O Amor de três laranjas, Cinderela ou as três irmãs de Rei Lear; mas a quase-totalidade do enredo tal como ele se apresenta nesta comédia, Shakespeare o encontrou na história de Gianetto em uma coletânea de novelle italianas intitulada Il Percorone, que foi escrita - ou talvez apenas organizada - por Ser Giovanni Fiorentino, escritor de quem não se conhece qualquer outra obra. Nesta fonte, no entanto, a prova da conquista da moça é apresentado sob a forma de o candidato agüentar uma noite inteira acordado, sendo que os dois primeiros são adormecidos com soníferos ministrados às escondidas; a variante com três arcas, por outro lado, o poeta pode ter tirado do poema Confesso Amantis, de John Gower, do Decameron, de Bocácio, ou da veneranda Gesta Romanorum, que nasceu no século XIV mas teve duas edições em inglês no século XVI.A história do pagamento de uma dívida por meio de uma liba de carne também poderia ser encontrada em bom numero de fontes, sendo que ao menos duas seriam de fácil acesso para Shakespeare, a popular A Balada da Crueldade de Geruntus, que data de antes de 1590, e O Orador, uma coletânea de orações, dentre as quais se encontra a que leva o título de De um judeu, que queria, por uma dívida, obter uma libra de carne de um cristão.

Contexto Social
A criação de O Mercador de Veneza, parece refletir com bastante precisão a forte onda de anti-semitismo que varreu Londres em 1593-94; Rodrigo Lopez, um judeu português que havia atingido a elevada posição de médico pessoal da rainha Elizabeth I, envolveu-se em uma complexa trama política (em torno de Portugal e não da Inglaterra) e acabou acusado de tomar parte de uma conspiração para assassinar a soberana. Hoje em dia há quase que total certeza de que a acusação feita a Lopez foi forjada, mas na época o clima ficou muito violento, e o médico judeu efetivamente foi enforcado em junho de 1594.
Durante o período da Segunda Guerra Mundial, Shylock foi interpretado como impressionante defensor da dignidade de sua raça, vitima de constantes perseguições de um cristianismo cruel.

Psicanálise
Muitos psicanalistas vêm em Shakespeare o verdadeiro precursor de Freud, e esta constatação evidencia a atração que até hoje suas figuras exercem.FREUD foi tão longe em seus estudos sobre o Poeta, que em 1913, reúne dois textos para interpretá-los: O Mercador de Veneza e Rei Lear. A situação, o mote literário da escolha dos candidatos de Porcia entre os três cofres, é examinado pelo psiquiatra que demonstrou sempre, um profundo conhecimento da obra do teatrólogo inglês, e nela captou elementos pra dissecar seu conteúdo psicanalítico, dele extraindo lições para seu métier.

Anti-semitismo?
Reportando-se mais especificamente ao “Mercador de Veneza”, Harold Bloom (2000, p. 222) dele diz:Somente um cego, surdo e mudo não constataria que a grandiosa e ambígua comédia Shakespeariana “O Mercador de Veneza” é uma obra profundamente anti-semita. [...] Seria improvável que o próprio Shakespeare fosse anti-semita, mas Shylock é um daqueles personagens Shakespearianos que parecem transpor os limites das peças a que pertencem.

Lei, Direito e Justiça
Nesta ponte que buscamos estabelecer entre literatura, direito, filosofia, e hermenêutica, tende-se a responder a inquirições básicas, como os descompassos oriundos entre lei, direito e justiça, ligados a um tema que não é espúrio à filosofia nem ao Direito.

O Aspecto Racial
No Mercador de Veneza, as personagens de António e Shylock representam, respectivamente, o julgamento coração e o julgamento da mente. Trata-se de personagens simbólicos, que transportam traços característicos dos grupos a que pertencem. O seu conflito não é, pois, meramente pessoal, mas também racial e religioso. Conforme observa Ludwig Lewisohn, “problemas constante e aprofundadamente enraizados conferem a esta fábula um significado que não se esgota nela própria”. (T. Heline)



LIVRO ESCOLHIDO – EDITORA L&PM

O REI LEAR

O REI LEAR E A AGRESSIVIDADE EGÓICA
(RITA FRANCI MENDONÇA)


Será Shakespeare, no drama do Rei Lear que exemplificará o comparecimento egóico da agressividade, sobretudo em seu liame social com a perversão. O rei protagonista representa um déspota pautado pela suposição de existir a lei de seu próprio gozo. Portanto, ele governa pelo submetimento, cuja contrapartida provoca, em alguns súditos, a identificação idólatra com seu despotismo e, em outros, desperta a obsessiva e ritual suposição de que dele emana uma lei a se obedecer, a ponto de ser venerado com lealdade, mesmo por aqueles que ele maltrata. O rei, ao propor às filhas uma incondicional demanda de amor e de cumplicidade, em troca de parte de seu reino, exemplifica uma proposta megalômana, que permitirá às mesmas lançar mão da perversão sedutória. Tal proposta de medir o amor das filhas elide qualquer relação fundada no amor, em favor de um pacto perverso. Já Cordélia, cuja relação com o pai é simbólica e amorosa, não necessita recorrer à sedução. Porém, o rei não pode suportar que ela rejeite sua demanda de identificação idólatra quando ela declara não ser somente filha, mas também mulher para ser amada e desejada por outro homem. Por esta razão, o rei não pode ouvir as advertências do conde de Kent sobre seu engano em deserdar Cordélia e abrir mão do reino para as duas filhas perversas. Isto porque, abrir mão de seu poder significa multifacetar o governar e isto poderia soar aos olhos do povo como uma confusão entre o pai severo e o pai humilhado, permitindo que as filhas o destituíssem do poder. Mas o conde recebe em troca de sua lealdade, a extradição.
Percebe-se que a perversão vai comparecer em todos os personagens interessados em usurpar algum poder. As filhas, uma vez de posse do reino, recusam-se a abrigar os cavaleiros do pai, para assim destituí-lo de qualquer proteção e poder. Elas cinicamente justificam seu sadismo, de forma aparentemente sensata. Já Edmundo, filho bastardo do conde de Gloucester, toma a legitimidade do irmão como intrusão limitante de seu gozo e, por isso, justifica sua perversão colocando-se como credor do pai, por ter sido concebido “com mais fogo vital”. Goza sadicamente ao perceber ser “fácil enganar um pai crédulo e um irmão nobre, que não conhece a maldade”. Deste modo, fingindo lealdade a ambos, joga um contra o outro. Assim, como no drama maquiavélico, justifica seus atos a fim de usurpar para si a legitimidade e os bens do irmão e põe o pai ao encalço do filho supostamente traidor. Em seguida, ele aproveita para usurpar o título e os bens do pai. Isto porque, tendo conquistado sua confiança através da manipulação, o pai lhe confidencia que ajudará o rei desamparado e que soube que o rei de França invadirá o país para restabelecer a ordem. Imediatamente ele delata o pai ao duque, marido de uma das herdeiras do rei. Este, supondo-se traído, demonstra sua perversidade facínora ao castigar o conde, que tenta contrariar seu gozo usurpador, arrancando-lhe os olhos. Seu sadismo é assim verbalizado: “ainda que não possamos condená-lo à morte sem a justiça formal, o nosso poder fará uma gentileza ao nosso ódio”. Deste modo, alia-se ao bastardo via especularidade sádica. Porém, é morto pela revolta de um servo do conde mutilado. Sua então viúva, fascinada pela perversão do bastardo, tenta seduzi-lo. O mesmo ocorre com sua irmã, que diz preferir perder a batalha ao seu objeto de desejo. Por isto esta última lhe propõe um pacto para eliminar seu marido, o duque de Albânia, já que ele tenta limitar a perversão da esposa ao perceber que “quem renega as suas origens não tem limite nem caráter” e diz: “a sabedoria e o caráter aos vis parecem vis” e “a imundície adora-se a si própria”. Por esta razão, o duque só aceita ir a guerra para defender a Inglaterra do invasor. Já Cordélia, apesar de ter sido vítima da severidade paterna, guarda deste pai humilhado um resquício de potência e, desta posição histérica, pretende reverter a impotência e banir a perversão. Para tal, reconcilia-se com o pai. A Inglaterra vence a batalha e o bastardo, supondo-se imune e impune por sua cumplicidade com as princesas, faz de Cordélia e do rei seus prisioneiros e manda enforcá-la, “colocando a culpa em seu próprio desespero”. O bastardo e as princesas são desmascarados em suas intenções e crimes e, sem saída para seu gozo, uma irmã envenena a outra, logo após suicídando-se. O rei não resiste a dor da perda da leal Cordélia, mas será simbolizado como “pai morto”, já que é colocado por seus fiéis súditos no lugar de pai ideal. Estes, em seu nome, restabelecem a lei, mesmo que, ironicamente, este texto dramático mostre que ele a supunha como “lei do gozo”.

RULFO, JUAN

JUAN RULFO

«Vim a Comala porque me disseram que vivia aqui o meu pai, um tal Pedro Páramo. Foi a minha mãe quem mo disse. E eu prometi-lhe que viria vê-lo quando ela morresse. Apertei-lhe as mãos como sinal de que o faria pois ela estava à beira da morte e eu disposto a prometer-lhe tudo. «Não deixes de ir visitá-lo» - recomendou-me. Chama-se assim e assado. Tenho a certeza de que gostará de conhecer-te.» Na altura nada mais pude fazer para além de lhe dizer que sim, que o faria, e de tanto lho dizer, continuei a dizê-lo mesmo depois do trabalho que as minhas mãos tiveram para se afastarem das suas mãos mortas.»
(In Pedro Páramo)

Juan Nepomuceno Carlos Pérez Rulfo Vizcuíno, o escritor mexicano conhecido como Juan Rulfo (16 de Maio de 1917- 7 de Janeiro de 1986), nasceu em Apulco, pequena localidade do estado de Jalisco. Descendente de uma família de proprietários rurais arruinada pela guerra, o pai e dois tios morreram durante a Guerra de Cristero, a mãe quando ele tinha 10 anos. A tragédia marcava o homem e o escritor, e o tema da morte haveria de estar presente em todos as suas histórias. Em Los muertos no tienen ni tiempo ni espacio, diálogo com Juan Rulfo o escritor fala desses anos «Tive uma infância muito dura, muito difícil. Uma família que se desintegrou muito facilmente num lugar que foi totalmente destruído. Desde o meu pai e minha mãe, inclusive todos os irmãos de meu pai foram assassinados. Vivi, portanto, numa zona devastada. Não apenas de devassidão humana, mas devassidão geográfica. Nunca encontrei até à data uma lógica que explique tudo isto. Não se pode atribuir à Revolução. Foi mais uma coisa atávica, uma coisa de destino, uma coisa ilógica.(...)».
Juan Rulfo vive num orfanato, em Guadalajara, entre 1928 a 1932, seguindo-se o seminário, ainda que por curto período de tempo. Parte depois para a Cidade do México, com o propósito de estudar direito, não termina os estudos mas começa a escrever trabalhos literários. A par de um emprego de agente da imigração, colabora com a revista América e em 1944 funda a revista literária Pan. O livro de contos A planície em Chamas (1953) e o romance Pedro Páramo (1955) são suficientes para apontar ao panorama literário sul-americano, e não só, um novo rumo.
Juan Rulfo impõem-se como o principal percursor do Realismo-Mágico, movimento literário que integra nomes tão sonantes como Gabriel García Márquez, Jorge Luís Borges e Julio Cortázar, seguidores e admiradores de Rulfo.Abandona cedo a escrita de romances e contos, mas continua presente na cena artística mexicana. Em parceria com Garcia Márquez e Carlos Fuentes escreve roteiros televisivos; roteiros de cinema reunidos no livro O Galo de Ouro e outros Textos para Cinema; e faz trabalhos fotográficos, com a mesma força, dimensão e emoção da escrita.Membro da Academia de Letras Mexicanas, vencedor do Prémio Príncipe das Astúrias e Prémio Cervantes, desde 1962 até à sua morte que Juan Rulfo ocupou o cargo de director do Departamento de Publicações do Instituto Nacional Indígena do México. Juan Rulfo é também, e justamente, o nome de um prestigiado prémio literário.

LIVRO ESCOLHIDO - EDITORA RECORD

PEDRO PÁRAMO E CHÃO EM CHAMAS ( L! )

A pedido da mãe moribunda, o narrador parte para Comala à procura do pai, Pedro Páramo. O pai morreu e todos os habitantes da aldeia. Também são fantasmas que lastimam as suas vidas antigas e falam de quem foi Pedro Páramo. O homem cruel, o senhor das terras, o pai de bastardos que desiste de tudo o que conseguiu, quando a única mulher que amou morre louca.

FAULKNER, WILLIAM

WILLIAM FAULKNER[ 25/09/1897, New Albany (EUA) / 06/07/1962, Byhalia, Mississipi (EUA) ]


Sem diploma do secundário (ensino médio), o prêmio Nobel de Literatura em 1949, e prêmio Pullitzer em 1955 e 1963 (póstumo), William Faulkner viveu em sua pequena cidade no Estado mais pobre dos Estados Unidos, o Mississipi. Só viajava para Hollywood para arranjar trabalho como roteirista. Indo e vindo, entre 1932 e 1955, trabalhou para os estúdios Metro, Fox e Warner. Como escreveu o crítico brasileiro Sérgio Augusto: "Só aderiu ao cinema porque precisava de dinheiro. Tinha 35 anos e acabara de escrever 'Luz em Agosto'. A venda de seus livros mal dava para pagar a conta da luz. Seus primeiros quatro livros não venderam mais de 2 mil exemplares cada. Seu primeiro (e único) best seller, 'The Wild Palms', é de 1939".
Por volta de 1958, a Fox tentou trazê-lo de volta. Na época, Faulkner, que já não estava mais tão necessitado de dinheiro, recusou o convite.
Tímido, ele preferia a companhia de seus amigos caçadores e dos vizinhos de seu sítio a outros escritores e intelectuais.
Seus primeiros livros traziam características da literatura do fim do século 19. "O Povoado", o primeiro romance da "Trilogia Snopes", é um retrato irônico das grandes depressões que antecederam a Guerra Civil norte-americana.
Faulkner entrou numa nova fase, quando encontrou seu estilo nas obras "O Som e a Fúria", "Enquanto agonizo", "Santuário", "Luz em agosto", "Absalão! Absalão!" e "Palmeiras Selvagens".
Além de viagens necessárias à sua carreira, Faulkner continuou enfurnado no Mississipi até se tornar escritor residente da Universidade de Virgínia. O contato com os estudantes está registrado no livro "Faulkner na Universidade".


LIVRO ESCOLHIDO - EDITORA COSAC NAIFY

LUZ EM AGOSTO ( L! )

Entre 1929 e 1932, William Faulkner publicou algumas das narrativas mais extraordinárias do século XX: Sartoris (1929); O som e a fúria (1929); Enquanto agonizo (1929); Santuário (1931); Luz em agosto (1932). Este último é um daqueles romances de arquitetura complexa, nos quais a ruptura com a linearidade provoca, a princípio, certo estranhamento. O tempo é estilhaçado, construindo um paradigma do procedimento típico do autor de entrecruzar histórias que ganham matizes inesperados quando comparadas entre si. Para que os detalhes de cada uma das narrativas apareçam, é necessário que o tempo, em um jogo de avanços e recuos, faça com que o leitor, em um primeiro momento, se perca entre as idas e vindas. Nas palavras de Sartre: “Seria equivocado tomar essas anomalias por exercícios gratuitos de virtuosidade: uma técnica romanesca sempre remete à metafísica do romancista ... a metafísica de Faulkner é uma metafísica do tempo”.
Faulkner valoriza todos os estilhaços. Multiplica os pontos de vista. Ilumina figuras sublimes e grotescas. Da atmosfera de violência e horror do Mississippi surgem personagens profundamente humanas: o assassino dilacerado pela herança de sangue; a mulher de família abolicionista hostilizada por uma cidade orgulhosa de seu passado escravocrata; o pastor refém de um passado familiar de violência e glória; o brutal defensor da justiça feita com as próprias mãos; o casal de velhos atormentados pelo fantasma do neto; o homem solitário que pensou estar livre das desgraças, e dos encantamentos, de amar; a jovem decidida e ingênua, deixada à própria sorte.
O ponto de entrecruzamento das três histórias é Joe Christmas, um mulato em quem, aparentemente, não se nota o sangue negro, mas a quem a marca do passado miscigenado não abandona nunca. Torturado pela falta de identidade, tem uma postura reativa e violenta frente ao mundo e, segundo o escritor Marçal Aquino, na orelha do livro, “Christmas é também o personagem mais dolorosamente trágico criado por Faulkner”. A seu lado, como companhia na marginalidade e no abandono, há Lena Grove, uma jovem que busca desesperadamente - do Alabama ao Tennessee - o pai do filho que carrega na barriga e que fugiu, tendo mudado de nome. Como elo da narrativa, está o não menos desesperado reverendo Hightower, um pastor rejeitado e traído por todos – pela mulher, por sua igreja e pela comunidade.
O romance se divide em 21 capítulos, como os Evangelhos, e a analogia da vida de Joe Christmas com a de Jesus Cristo já foi traçada pela crítica. De fato, JC não sabe quem foi o pai e sua vida será um constante conflito com a própria identidade negra ou mestiça, que não pode ser assumida integralmente sem confrontar as bases da sociedade racista de seu tempo.
Faulkner transforma a vida em vertigem. Nada está morto. Os estilhaços do passado ainda ferem. Sartre soube explicar a vertigem faulkneriana: “Parece que podemos comparar a visão de mundo de Faulkner àquela de um homem sentado num carro aberto e que olha para trás. A cada instante sombras disformes surgem à sua direita, à sua esquerda, lusco-fusco, tremores difusos, confetes de luz que não se tornam árvores, homens, carros senão um pouco depois, com o distanciamento”.
(A bem dizer, os primeiros capítulos apresentam a limpidez da paisagem sulista refletida também na linguagem, cujas dobras vão se acentuando a partir do capítulo 6. O título se refere a esta luz outonal em pleno verão – os sinais naturais de uma decadência em meio ao apogeu da vida. Alude ainda a uma canção tradicional norte-americana sobre os nascidos antes do tempo. Os fatos que inspiraram o autor aconteceram quando era criança em Oxford, Mississippi.) Mas a história não termina aí. Toda a maestria da construção de Luz em agosto se confirma no último capítulo, numa reviravolta narrativa que o consagrou definitivamente. O leitor, guiado por Faulkner, encerra o livro em estado de assombro. Viveu intensamente o horror, tomou contato com regiões sombrias da alma. Percebeu o passado como um inimigo que não dá trégua. Será assombrado por imagens poderosas da grandeza épica brotando naquela vida pobre, sórdida e trágica. Um livro que não tem fim.

BENEDETTI, MARIO

MARIO BENEDETTI

Mario Benedetti nasceu em 1920 em Tacuarembó, Uruguai. Em 1960, com a publicação de La tregua, alcança reconhecimento internacional, com mais de uma centena de edições traduzidas em 19 idiomas e levada ao cinema, ao teatro, ao rádio e à televisão. Em 1973 teve que abandonar o seu país por razões políticas; viveu na Argentina, em Cuba, no Peru e em Espanha. A sua vasta produção literária abrange todos os géneros, incluindo famosas letras de canções. A poesia de Benedetti renova a linguagem dos sentimentos, diz com uma voz original aquilo que todos sentimos.

LIVRO ESCOLHIDO – EDITORA ALFAGUARA

A TRÉGUA (L)

Ao registrar uma alma, no mínimo cheia de tormentas, na figura de um viúvo que está prestes a se aposentar em uma firma de autopeças e que se apaixona por uma jovem subordinada, Benedetti propõe um questionamento sobre a felicidade e um retrato agridoce dos difíceis relacionamentos humanos. Transformado em filme e com mais de cem edições em espanhol, A Trégua tornou-se seu romance mais famoso.

 
LIVRO ESCOLHIDO - EDITORA ALFAGUARA
 
CORREIO DO TEMPO
Os contos neste livro tratam dos mais diversos tipos de encontros e despedidas, do distanciamento e da passagem do tempo - uma criança passa um fim de semana na casa do pai separado; um homem doente escreve ao amigo pela última vez; sobreviventes de dois naufrágios diferentes se encontram acidentalmente numa ilha deserta; uma visita inesperada de um preso político ao seu algoz; e um relato, cheio de compaixão, de um homem preso por matar quem amava.

PIGLIA, RICARDO

RICARDO PIGLIA

Ricardo Piglia nasceu em Adrogué, província de Buenos Aires, em 1941. Em 1967 saiu seu primeiro livro, Invasão, premiado pela Casa de las Américas. Em 1975 publicou Nome falso; em 1980, Respiração artificial e, em 1986, a ópera Cidade ausente (todos editados no Brasil pela Iluminuras) Piglia recebeu, em 1997, o mais importante prêmio literário da Argentina, Planeta, pelo livro Dinheiro queimado (Companhia das Letras). Escreveu o roteiro original de Coração iluminado, em colaboração com o diretor Hector Babenco. Crítico literário e ficcionista, é professor da Universidade de Buenos Aires e leciona habitualmente na Universidade de Princeton, nos Estados Unidos

LIVRO ESCOLHIDO - EDITORA COMPANHIA DAS LETRAS
O ÚLTIMO LEITOR
Como Jorge Luis Borges, o escritor argentino Ricardo Piglia é avesso às fronteiras tradicionais e, sobretudo, à fronteira mecânica entre ficção e não-ficção. Mescla um andamento crítico e inquisitivo à trama de relatos. Ensaísta perspicaz, não hesita em entrelaçar a experiência pessoal às mais finas percepções literárias. Nos seis ensaios que compõem 'O último leitor', Piglia identifica várias modalidades de leitura na tradição literária ocidental. Não se trata de uma história sistemática da leitura, mas de um percurso por situações de leitura encenadas em textos centrais ou marginais da literatura, de 'D. Quixote' a 'Madame Bovary', das 'Ficções' de Borges ao 'Ulisses' de Joyce. Uma galeria fascinante de 'últimos leitores', isto é, leitores viscerais, que empenham todo o seu ser na apropriação da palavra escrita e, por meio desta, do próprio destino - Gramsci numa prisão fascista e Robinson Crusoé numa ilha deserta, Anna Kariênina num trem para Moscou ou Che Guevara. Há uma fotografia clássica de Ernesto Che Guevara, tomada em meio à desolação da paisagem boliviana, que o mostra montado em uma árvore, sereno como se estivesse em sua poltrona, lendo um livro. Em vez disso, Guevara está em plena guerrilha, em plena batalha, e a leitura lhe serve como um refúgio, como fuga. "Minhas duas fraquezas fundamentais: o tabaco e a leitura", ele anotou em seus famosos Diários. Ao ser preso em Ñancahuazu, Che levava consigo só uma bolsa de couro, atada ao surrado cinturão. Nela estavam um caderno de notas pessoais e alguns livros. E era tudo.
A relação apaixonada que Che Guevara tinha com os livros serve ao escritor argentino Ricardo Piglia como emblema da paixão pela literatura. Paixão que exige certa submissão e, até, certa fraqueza. Visto hoje como um líder audacioso e até imprudente, Che Guevara se concedia desabafos que contradizem esta imagem. Na primeira carta que escreveu para a mãe logo depois de chegar a Sierra Maestra, por exemplo, ele que - como Marcel Proust -, sofria com a asma, admite: "O inalador é mais importante para mim que o fuzil".
Um inalador e um livro, nada mais que isso. E estar sozinho, acima das turbulências do real, mais nada. As relações afetivas, e íntimas, de Guevara com a leitura motivam o mais surpreendente dos seis capítulos de O último leitor. O último leitor a que o título se refere é exatamente o Che. "Guevara é o último leitor porque já estamos diante do homem prático em estado puro, diante do homem de ação", Piglia explica. Ao contrário dos escritores profissionais, que escrevem para viver, Guevara vivia - mesmo as mais temerárias experiências guerrilheiras - para escrever. O amor pelos livros, que perdura até sua morte trágica, expõe ainda, no entender de Piglia, o abismo que o separa do outro ícone da esquerda revolucionária: seu companheiro Fidel Castro. Enquanto Castro, o grande retórico dos discursos sempre teve facilidade para se aproximar das pessoas, Guevara, o tímido, preferia "isolar-se, separar-se, construindo para si um espaço à parte"

TOLSTÓI, LEV

LEV TOLSTÓI
Lev Tolstói é um dos grandes autores da literatura russa do século XIX. Tornou-se conhecido pelos romances Guerra e Paz e Ana Kariênina, porém é autor de contos igualmente notáveis.
Nasceu em 1828, numa importante família ligada aos czares. Cedo ficou órfão. Estudou línguas orientais e direito na Universidade de Kazan. Serviu no exército russo, onde começou a escrever suas primeiras obras. Mais tarde, viajou por vários países da Europa. Regressou, então, à sua terra natal para administrar suas terras e dedicar-se à literatura. Morreu em 1910, em Astapovo, Rússia.

LIVRO ESCOLHIDO – EDITORA 34


A MORTE DE IVAN ILITCH

Tolstói retoma o tema da alienação, porém com dimensões filosóficas amplas e profundas e um sentido trágico nunca alcançado antes na história da literatura russa. Para ele, reflete-se sobre a morte visando à essência da vida, porquanto a atitude do homem em face da morte define a qualidade de sua vida e a possibilidade de encontrar um sentido para ela.
A narrativa começa pela morte de Ivan llitch, com um dado sintomático: ele exerce um cargo muito elevado no Ministério da Justiça, mas seus colegas imediatos são surpreendidos pela notícia de sua morte dada por um jornal. Essa surpresa revela a fria indiferença burocrática pelo destino do colega durante sua prolongada doença.
A reação dos colegas à morte de Ivan Ilitch revela total ausência de afetividade e define muito bem a consciência coletiva: em vez do sentimento natural de perda de um ser humano, e ainda mais colega de quem, segundo o narrador, “todos gostavam”, todos, porém, e sem exceção, começam a pensar que a subida de um deles ao posto antes ocupado pelo morto provocará promoções em cascata que beneficiarão cada um e trarão conseqüente melhoria dos vencimentos.
Os colegas saem do velório e terminam a noite à mesa do carteado, a viúva só pensa em arrancar o máximo de dinheiro do erário pela morte do marido e, assim, família e burocracia, juntas, fazem parte do mesmo sistema de valores, do mesmo ciclo de morte no qual Ivan Ilitch imolou-se em vida.

SARAMAGO, JOSÉ

JOSÉ SARAMAGO
José Saramago nasceu na aldeia ribatejana de Azinhaga, concelho de Golegã, no dia 16 de Novembro de 1922, embora o registo oficial mencione o dia 18. Seus pais emigraram para Lisboa quando ele ainda não perfizera três anos de idade. Toda a sua vida tem decorrido na capital, embora até ao princípio da idade madura tivessem sido numerosas e às vezes prolongadas as suas estadas na aldeia natal. Fez estudos secundários (liceal e técnico) que não pôde continuar por dificuldades económicas.
No seu primeiro emprego foi serralheiro mecânico, tendo depois exercido diversas outras profissões, a saber: desenhador, funcionário da saúde e da previdência social, editor, tradutor, jornalista. Publicou o seu primeiro livro, um romance ("Terra do Pecado"), em 1947, tendo estado depois sem publicar até 1966. Trabalhou durante doze anos numa editora, onde exerceu funções de direcção literária e de produção. Colaborou como crítico literário na Revista "Seara Nova".
Em 1972 e 1973 fez parte da redacção do Jornal "Diário de Lisboa" onde foi comentador político, tendo também coordenado, durante alguns meses, o suplemento cultural daquele vespertino. Pertenceu à primeira Direcção da Associação Portuguesa de Escritores. Entre Abril e Novembro de 1975 foi director-adjunto do "Diário de Notícias". Desde 1976 vive exclusivamente do seu trabalho literário.

LIVRO ESCOLHIDO - EDITORA COMPANHIA DAS LETRAS


O ANO DA MORTE DE RICARDO REIS (L!)
A reconstrução da identidade imaginária de um dos heterónimos do poeta Fernando Pessoa constitui o mote do livro "O Ano da Morte de Ricardo Reis" (1984), um dos melhores romances de José Saramago, dois anos depois da publicação de "Memorial do Convento". Ricardo Reis, tal como o título o deixa prever, é a personagem central do livro, mas também Fernando Pessoa, o seu criador, ocupa um lugar preponderante na acção, a qual se situa historicamente nos anos 30, época de plena consolidação da ditadura salazarista.
Partindo das pistas biográficas de Ricardo Reis registadas pelo próprio Pessoa - um médico que se expatriara desde 1919 no Brasil, por motivos políticos -, Saramago imagina a personagem no seu regresso a Portugal em Dezembro de 1935, descrevendo o seu quotidiano nos nove meses anteriores à sua morte. Ricardo Reis chega a Lisboa, aluga um quarto de hotel e depois um apartamento, envolve-se com duas mulheres, Lídia e Marcenda, é seguido pela polícia, além de receber sucessivas visitas do falecido Fernando Pessoa, o que contribui para acentuar o ambiente de irrealidade da acção.
Em "O Ano da Morte de Ricardo Reis", a escrita de Saramago possui uma forte marca de intertextualidade, sendo que os nomes de Marcenda e Lídia derivam ambos das "Odes de Ricardo Reis" de Pessoa, além do facto de o romance de Saramago se construir em torno da personagem inventada pelo poeta, reconstruída através do diálogo com o seu criador. Também as referências a Luís de Camões são constantes ao longo da obra, bem como a presença do escritor argentino de ascendência portuguesa Jorge Luis Borges. Toda esta multi-referencialidade que perpassa pelo livro transforma "O Ano da Morte de Ricardo Reis" num romance que se transcende a si próprio, posicionando-o numa tradição literária simultaneamente clássica e moderna, portuguesa e internacional.
[Texto de Marisa Torres da Silva (Coleção Mil Folhas, Portugal)]

WOLFF, FAUSTO

FAUSTO WOLFF

Fausto (1940) mora no Rio de Janeiro desde 1958. Trabalhou em diversos jornais e revistas e é um dos nomes mais respeitados da imprensa brasileira. Entre suas obras está O Lobo Atrás do Espelho. Representante de uma geração combativa e militante, o autor reúne textos que transmitem esperanças e frustrações com uma inteligência brilhante e uma perspicácia às vezes surpreendente.

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A MILÉSIMA SEGUNDA NOITE

Apesar do pessimismo ao qual somos impelidos por um olhar contundente e atento sobre a situação atual do país, o humor é sempre redentor e ajuda a compreender a estupidez que nos cerca.
Isso fica claro em A Milésima Segunda Noite (Bertrand Brasil, 742 págs.), coleção de pequenos textos com histórias, crônicas, fábulas e reflexões sobre os mais diversos temas (política, mulheres, literatura, etc.), sempre tendo como norte o humor e o texto conciso característico do autor, o gaúcho Fausto Wolff.

TREVISAN, JOÃO SILVÉRIO

JOÃO SILVÉRIO TREVISAN

João Silvério Trevisan (1944) nasceu na cidade de Ribeirão Bonito (SP). Escritor com domínio da prosa, é ensaísta, dramaturgo, tradutor, jornalista, coordenador de oficinas literárias, roteirista e diretor de cinema. Estudou Filosofia. Recebeu inúmeros prêmios em teatro, cinema e literatura, dentre os quais o Concurso Latinoamericano del Cuento, em Puebla – México, o Jabuti (três vezes) e o da Associação Paulista dos Críticos de Arte - APCA (duas vezes). Tem obras traduzidas para o inglês, o alemão e o espanhol. Escreve para jornais e revistas de todo o País e do exterior. Alguns livros de autoria de Trevisan:Testamento de Jônatas Deixado a David (contos, 1976). As Incríveis Aventuras de El Cóndor (romance juvenil, 1980). Em Nome do Desejo (romance, 1983). Vagas Notícias de Melinha Marchiotti (romance,1984).Devassos no Paraíso (ensaio histórico-antropológico, 1986). O Livro do Avesso (romance, 1992). Ana em Veneza (romance, 1994). Troços & Destroços (contos, 1997). Seis Balas num Buraco Só: A Crise do Masculino (ensaio, 1998).

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SEIS BALAS NUM BURACO SÓ: A CRISE DO MASCULINO

O ensaio de João Silvério Trevisan prova que é possível uma discussào inteligente e sensível sobre a crise do masculino em meio a tantas banalidades consumidas freneticamente por homens e mulheres desesperados com as novas dificuldades que enfrentam.

TREVISAN, DALTON

DALTON TREVISAN
As histórias de Dalton Trevisan, um dos melhores contistas brasileiros contemporâneos, reproduzem um cotidiano angustioso numa linguagem direta e popular. Dalton Trevisan nasceu em Curitiba PR, em 14 de junho de 1925. Formado pela Faculdade de Direito do Paraná, liderou em Curitiba o grupo literário que publicou, em 1946, a revista Joaquim (em homenagem a todos os Joaquins do Brasil). A publicação, que circulou até dezembro de 1948, continha o material de seus primeiros livros de ficção, entre os quais Sonata ao luar (1945) e Sete anos de pastor (1948). Em 1954, publicou Guia histórico de Curitiba, Crônicas da província de Curitiba, O dia de Marcos e Os domingos ou Ao armazém do Lucas, edições populares à maneira dos folhetos de feira. A partir da gente de sua cidade, chegou a uma galeria de personagens e situações de significado universal, em que as tramas psicológicas e os costumes são agudamente recriados por meio de uma linguagem precisa e de sabor genuinamente popular, que valoriza os mínimos incidentes de um dia-a-dia sofrido e angustioso. Publicou também Novelas nada exemplares (1959), Morte na praça (1964), Cemitério de elefantes (1964) e O vampiro de Curitiba (1965). Isolado dos meios intelectuais, Trevisan obteve, sob pseudônimo, o primeiro lugar do I Concurso Nacional de Contos do estado do Paraná, em 1968. Escreveu depois A guerra conjugal (1969), Crimes da paixão (1978) e Lincha tarado (1980). Em 1994, publicou Ah é?, obra-prima de seu estilo minimalista. Além de escrever, Trevisan exerce a advocacia e é proprietário de uma fábrica de vidros.
Recebeu o Prêmio Camões 2012 e sua escolha foi unânime pelo júri da 24ª edição do prêmio, formado por seis representantes de Portugal, Brasil, Moçambique e Angola.
O homenageado passou a ser chamado de Vampiro de Curitiba devido ao seu estilo de vida  de reclusão. Trevisan não gosta de dar entrevistas nem de ser fotografado e dificilmente é visto nas ruas.


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PICO NA VEIA

Um bom conto é pico certeiro na veia. Mais uma vez, Dalton Trevisan acerta o alvo. Em PICO NA VEIA, o autor usa contos curtos e secos, construídos com ironia cortante e humor cáustico, para lançar um olhar objetivo sobre a condição humana, em tudo o que esta tem de oculto e ambíguo. São textos enxutos que retratam a realidade do Brasil de hoje, onde a miséria, o desemprego e o desespero diante da desesperança provocam suicídios, humilhações, medo, amargura e exploração sexual — particularmente das mulheres —, numa ficção de primeira qualidade. PICO NA VEIA é uma coletânea composta de cerca de duzentos contos. Alguns mais longos, mas, em sua maioria, o livro é uma sucessão de miniestórias. Nelas, os temas recorrentes de Trevisan reaparecem: os desastres do amor, os infernos particulares, a guerra dos sexos, as cenas da vida cotidiana, a condição humana. Tudo composto com uma quase avara escolha de palavras, só perdoada pela acuidade poética dos melhores haicais. Nada se perde na preciosa essência de suas tramas. Há muitos anos, Dalton Trevisan afirmou que só chegaria à perfeição quando compusesse histórias completas com apenas duas ou três linhas. Em PICO NA VEIA, literalmente, para bom entendedor, meia-palavra basta. Dalton Trevisan — considerado pela crítica especializada como o escritor que melhor soube dar dignidade aos sentimentos humanos — mostra que menos é mais. Com apenas algumas palavras e outros sinais gráficos, PICO NA VEIA transmite todos as aflições de homens e mulheres. De Dalton Trevisan, pessoa, pouco se sabe. Ele guarda a sete chaves sua intimidade, não dá entrevistas, não se deixa fotografar, provocando frustração em muitos pela sua recusa irrevogável. A quem lhe pede entrevistas, responde que, para saber mais de sua vida, basta ler seus livros. Ele ali está de corpo e alma. E, em PICO NA VEIA, mais uma faceta de seu caráter é revelada.

TORRES, ANTONIO


ANTONIO TORRES

Aos 32 anos, Antônio Torres lançou seu primeiro romance, Um cão uivando para a Lua, que causou grande impacto, sendo considerado pela crítica “a revelação do ano”. O segundo “Os Homens dos Pés Redondos”, confirmou as qualidades do primeiro livro. O grande sucesso, porém, veio em 1976, quando publicou Essa terra, narrativa de fortes pinceladas autobiográficas que aborda a questão do êxodo rural de nordestinos em busca de uma vida melhor nas grandes metrópoles do Sul, principalmente São Paulo.
Obra-prima da literatura brasileira dos anos 70, Essa terra ganhou uma edição francesa em 1984, abrindo o caminho para a carreira internacional do escritor baiano, que hoje tem seus livros publicados em Cuba, na Argentina, França, Alemanha, Itália, Inglaterra, Estados Unidos, Israel e Holanda, onde foram muito bem recebidos. Em 2001 a Editora Record lança uma reedição comemorativa (25 anos) de Essa Terra. Torres, porém, não restringiu seu universo ao interior do Brasil. Passeia com a mesma desenvoltura por cenários rurais e urbanos, como em Um táxi para Viena d’Áustria, de 1991.
Em 1997, Torres decidiu retornar ao tema e aos personagens do consagrado Essa terra. Vinte anos depois, narrador e protagonista voltam à pequena Junco em O cachorro e o lobo, para encontrar uma cidade já transformada pela chegada do progresso. É um romance de fina carpintaria literária que foi saudado pela crítica como o melhor de todos os livros de Antônio Torres.
Foi condecorado pelo governo francês, em 1998, como “Chevalier des Arts et des Lettres”, por seus romances publicados na França. E ganhou o Prêmio Machado de Assis 2000, da Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto da sua obra.
Em seu mais novo romance, Meu Querido Canibal (Editora Record 2000), Torres se debruça sobre a vida do líder tupinambá Cunhambebe, o mais temido e adorado guerreiro indígena, para traçar um painel das primeiras décadas de história brasileira. Com este romance ganha o Zaffari & Bourbon, maior prêmio literário do país, R$100.000,00, dividido com o escritor catarinense Salim Miguel (NUR na Escuridão), promovido pela 9a Jornada Nacional de Literatura de Passo Fundo.


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PELO FUNDO DA AGULHA


Personagem principal de Essa terra, Totonhim e Junco, cidade natal do escritor Antônio Torres e de seu personagem mais célebre, surgem novamente para o público em 1997, com O cachorro e o lobo, no qual se conta o regresso do protagonista à cidade depois de ausência de 20 anos. Mas ainda faltavam coisas pra contar. O emocionante acerto de contas entre Totonhim e suas memórias de Junco acontece agora, com PELO FUNDO DA AGULHA, que fecha uma trilogia primorosamente construída na velocidade de um pau-de-arara.
São três tempos de um personagem catalisador da vida brasileira na última metade do século XX. Em Essa terra, ele aparece moço, recebendo seu irmão Nelo, que partira para São Paulo. Cultuado como alguém que deu certo, Nelo volta falido para sua Junco, no sertão baiano, e acaba cometendo suicídio por não corresponder às expectativas dos seus e por não se reencontrar mais com a cidade. 0Em O cachorro e o lobo, a narrativa ganha lentidão. Transcorridos 20 anos, Totonhim reaparece para comemorar o aniversário de 80 anos do pai. Atormenta-o o desemprego, mas ainda consegue representar o papel do homem bem-sucedido, distribuindo presentes e festejando com seus conterrâneos. Nesta viagem perigosa, seu pai teme que ele siga o exemplo do irmão, e lhe proporciona um almoço que é um elogio da vida e uma noite de amor com sua primeira namorada.
Em PELO FUNDO DA AGULHA, 10 anos depois, Totonhim está sozinho no mundo. Aposentou-se, separou-se da mulher e dos filhos, perdeu o melhor amigo e faz uma outra viagem de volta – totalmente interior. Embalado pela imagem da mãe velhinha, mas ainda com visão boa para enfiar a linha pelo fundo da agulha, sem usar óculos, ele repassa vários lances de sua vida, como se a olhasse por esse orifício. As figuras agora existem só na memória de Totonhim, que revela o lado paulista de sua história.
Ele está em uma nova encruzilhada. O homem fora de combate deita na cama e pensa no sentido de tudo. Não há ninguém para consolá-lo e ele se sente perseguido pelas histórias de amigos e parentes que se suicidaram. Quer voltar para Junco, Junco não existe mais. "Tentei, neste livro, fazer uma reflexão sobre este crepúsculo do mundo em que vivemos. Um mundo pós-utópico, pós-modernista, pós-tudo. Entendo que por trás dos impasses do personagem Totonhim não estão apenas os meus próprios. Nem apenas da minha geração. O que me parece é que de repente nos vemos todos – jovens, adultos e velhos – numa espécie de encruzilhada do tempo, em busca de uma saída para o futuro. E onde está esta saída? Eis a questão", conta o autor.
Ao som de velhas canções, Torres constrói em PELO FUNDO DA AGULHA uma narrativa musical, com idas e voltas, representando o próprio movimento desses migrantes que habitam dois tempos e dois mundos, fazendo a passagem contínua de um para o outro.

TÓIBIN, COLM







COLM TÓIBIN

Colm Tóibin nasceu na Irlanda, em 1955. Depois de se formar em História e Inglês, Tóibin seguiu em 1975 para Barcelona chegando a participar de muitas manifestações pela democratização do país e, em especial, pela autonomia catalã. Sua relação com a Catalunha está registrada nos livros Homage to Barcelona e The South, seu primeiro romance. De 1978 a 1985 viveu em Dublin escrevendo para vários jornais e revistas, inclusive com reportagens feitas por ele em 1985 durante uma viagem pela América do Sul e África. Nos anos 1990, publicou ficções e livros de ensaios. Desde 1994 escreve resenhas para London Review of Books. Em 2004 lançou seu quinto romance, The Master. Obras publicadas no Brasil: História da Noite (Record) e O Sul (Record).


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O MESTRE

O Mestre é um romance sobre a vida do escritor americano Henry James (1843-1916), autor de clássicos como Retrato de uma senhora e Os embaixadores. Para compor a obra, o irlandês Colm Tóibín empreendeu uma pesquisa minuciosa em biografias do autor e de membros de sua família, em obras críticas e nas cartas trocadas entre Henry James, seu irmão William e alguns dos amigos mais próximos do escritor. Mas a pesquisa documental é apenas ponto de partida para Tóibín construir uma narrativa apaixonada e envolvente, que homenageia Henry James e procura desvendar alguns dos mistérios que permeiam a vida daquele que ficou conhecido como "o mestre" das letras americanas, notório por seu comportamento reservado e pela indefinição de sua vida sentimental. O romance compreende os cinco anos que vão de janeiro de 1895 até outubro de 1899, um período delicado para o escritor. Consagrado por Daisy Miller (1879) e Retrato de uma senhora (1881), James depositava esperanças de sucesso financeiro na literatura dramática, mas a estréia de sua peça Guy Domville (1895), encenada em Londres, foi vaiada na presença do próprio autor. O Mestre compõe um retrato de Henry James como um escritor dividido entre a necessidade profunda de isolamento e privacidade e o talento de observador da comédia humana, com uma capacidade notável de explorar sutilezas dos relacionamentos sociais e amorosos - características que fizeram dele um dos escritores mais refinados de todos os tempos. "Audacioso, profundo e de uma inteligência extraordinária." - The Guardian "Um romance belo, engenhoso e comovente." - The New York Times "Descrições evocativas e precisas, tonalidade melancólica mas serena, escrita sonora mas não pomposa - uma prosa magistral." - Washington Post
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MÃES E FILHOS
São, como anuncia o título, os laços maternos, rompidos ou pendentes, que alimentam estas nove ficções curtas. O tema, sempre ameaçado de esgotamento , impõe, por outros meios, vitalidade a "Mães e Filhos".Tanto mães como filhos encontram-se, da primeira à última página, submetidos a um tipo de conexão que os converte em criaturas de exceção.Um criminoso e um depressivo até perambulam por estas histórias, mas o autor não se satisfaz na compaixão pelos desajustados.Ele prefere sondar o passado de modo mais ou menos reticente, sem que de lá traga uma razão pronta, tampouco uma satisfação que agrade a todos ou resolva problemas.Mais até que filhos desajustados, são as mães que tentam escapar de seus lugares projetados pelos filhos (ou que estão radicalmente ausentes na figura de mortas recentes) que tornam estes relatos tão angustiantes.Sobre eles paira uma forma de indecisão, quase sempre na figura de um passado que retorna subitamente, como em "Famous Blue Raincoat", canção que dá título a um dos contos mais sofridos do lote.Aqui, um passado encaixotado é involuntariamente libertado e, com ele, traz uma dor contida. A memória nos relatos de Tóibín não chega a ser, numa chave proustiana, um meio de busca. Seu efeito parece mais colateral, como um relâmpago (ou um choque) que traz de volta ao presente o impacto dos traumas.Figurados como retorno, reaparições ou reencontros, o que eles guardam em comum é o fato de não promoverem nenhum tipo de solução, o que se reflete nos fins sem conclusões que se repetem neste conjunto de histórias.Conduzido por este tipo de situação reiterativa, os ciclos de desencontro alcançam o ápice em "Um Longo Inverno", última, mais extensa e impactante história do conjunto.Nela, a desaparição súbita da figura da mãe coloca pai e filho em situação primeiro de busca, depois de espera, num suspense que revela muito enquanto pouco conta.Com o artifício das histórias de mistério, Tóibín nos conduz para a zona de sombra e de indefinições que torna a leitura de seus textos um exercício que proporciona um salutar desconforto.
(CÁSSIO STARLING CARLOS, Folha de São Paulo, 30/11/2008)

TABUCCHI, ANTONIO




ANTONIO TABUCCHI

Antonio Tabucchi nasceu em Pisa, Itália, em 1943. É professor de literatura portuguesa do Departamento de Português da Universidade de Pisa e um dos maiores especialistas da atualidade em Fernando Pessoa, sobre quem escreveu vários ensaios e cuja obra traduziu para o italiano. Apreciador também de literatura brasileira, traduziu poemas de Carlos Drummond de Andrade que foram publicados no volume Sentimento del mondo (Turim Einaudi 1987) e o romance Zero, de Ignácio de Loyolla Brandão. Do autor a Rocco já publicou A cabeça perdida de Damasceno Monteiro, Afirma Pereira, A mulher de Porto Pim, Noturno indiano, O anjo negro, Os três últimos dias de Fernando Pessoa, Os voláteis do beato Angélico, Requiem e Sonhos de sonhos.


LIVRO ESCOLHIDO – JOSÉ OLYMPIO (RECORD)


AFIRMA PEREIRA


“O escritor deve ser chato e incômodo. Deve inquietar, desassossegar a consciência das pessoas”, acredita Antonio Tabucchi. Por isso escolheu um modesto jornalista de meia-idade, em plena ditadura salazarista, para ser o protagonista do livro Afirma Pereira. Ao longo do romance, ambientado na Lisboa de 1938, o autor mostra as mudanças de comportamento do jornalista, que trocou uma rotina medíocre por atos corajosos contra a ditadura, até morrer. E essa ficção, com referências a fatos históricos ocorridos na Europa na década de 30, virou filme, dirigido por Roberto Faenza e encenado por Marcelo Mastroianni.
Valendo-se de recursos metafóricos, Tabucchi nos apresenta um personagem semimorto, pesado, que sua demais e aprecia temas ligados à morte. Personagens distintos, no entanto, se movimentam ao seu redor e, sob os efeitos daquele momento histórico de intensa opressão, conseguem lhe fornecer elementos definitivamente determinados para a sua radical transformação.
Nesse belíssimo romance, Antonio Tabucchi nos descreve um processo de maturação psicológica, que surpreende e encanta, tanto pela qualidade dos resultados alcançados por seu protagonista, como pelo arrojo e originalidade no desenvolvimento da narrativa.
Na escrita, a memória impulsiona Tabucchi. Para fazer Afirma Pereira, ele se inspirou num personagem real que conheceu rapidamente em Paris, nos anos 60: um jornalista português obrigado a se exilar na capital parisiense por ter publicado um artigo contra Salazar.
O autor escolheu Portugal como cenário dessa história, porque há anos se apaixonou pelo país. Seu interesse nasceu da leitura do poema “Tabacaria”, de Fernando Pessoa. A admiração pelo poeta levou-o a aprender português e a se tornar um dos maiores especialistas da atualidade em Fernando Pessoa.

SUASSUNA, ARIANO




ARIANO SUASSUNA

A força do arcaico é justamente sua contínua presentificação e, conseqüentemente, sua capacidade de se eternizar. A arte genuinamente popular se baseia nesse pensamento. Para transformar o local em simbólico e universal, ARIANO SUASSUNA, o decifrador de brasilidades, como já foi chamado, e um dos principais preservadores da cultura do país, alia os valores mais arraigados de sua região a seu imenso arcabouço erudito e teórico. Com uma escrita que junta, a um só tempo, elementos do Simbolismo, do Barroco e da literatura de cordel, esse ficcionista, poeta, dramaturgo e pensador da cultura, transforma o sertão no palco das questões humanas de qualquer lugar do mundo. Ele foi o criador do Movimento Armorial, que tem como projeto a confluência simultânea de todas as artes populares do Nordeste brasileiro, trabalhando a favor da dignidade humana. Romance d’A Pedra do Reino é considerado um dos melhores do país, e a peça O Auto da Compadecida, além de encenada diversas vezes por todo o mundo, já recebeu três adaptações cinematográficas.


LIVRO ESCOLHIDO – EDITORA JOSE OLYMPIO


A PEDRA DO REINO


A pedra do reino é apresentado como um romance autobiográfico narrado por Dom Pedro Dinis Ferreira-Quadrena, o auto-proclamado “Rei do Quinto Império e do Quinto Naipe, Profeta da Igreja Católico-Serteneja e pretendente ao trono do Império do Brasil”. Quaderna, obcecado em criar uma versão essencialmente nordestina para o livro Compêndio narrativo do peregrino da América Latina, de Nuno Marques Pereira, se descreve como descendente dos verdadeiros reis brasileiros – que nenhuma relação têm com aqueles “imperadores estrangeirados e falsificados da Casa de Bragança”. Seus antepassados são, na verdade, os legítimos reis castanhos e “cabras” da Pedra do Reino do Sertão, que fundaram a sagrada Coroa do Brasil.

STEINER, GEORGE


GEORGE STEINER

George Steiner, um dos mais sofisticados intelectuais do circuito universitário anglo-saxão do século XX, nascido em Paris, em 1929, mas educado nos Estados Unidos, é um humanista pessimista. Como apreciador e crítico da grande cultura clássica greco-romana, ele se interroga sobre o seu declínio e visivelmente sofre com a espantosa contradição entre a exuberância do pensamento ocidental e o morticínio, especialmente dos judeus, desencadeado neste século pelas forças totalitárias, geradas por essa mesma cultura. Uma das suas maiores inquietações é responder como alguém pode escutar Schubert à tarde e, em seguida, sair para tortura e esfolar alguém à noite? Entremente, Steiner revela-se um amante extremado dos livros e da leitura, um homem angustiado com a soberania da tecnologia e o descenso da humanística.


LIVRO ESCOLHIDO – EDITORA RECORD


LIÇÕES DOS MESTRES


Numa época em que as referências se acumulam e mais desorientam do que orientam, alguns raros autores nos servem de bússola. Entre eles, está, hoje, George Steiner. Um dos poucos com uma preocupação de dar um contexto às coisas, de conduzir a conversa ao longo da história, de mostrar de onde se veio e – mais do que para onde se vai – onde se está. Percorrer suas páginas é tomar a mão segura do mestre e se deixar levar. Algo que não existe mais. Aliás, trata disso seu novo livro pela editora Record. Lições dos Mestres explora, justamente, a relação mestre-discípulo – revelando como ela pode ser sofisticada, enriquecedora e plena em sutilezas que se perderam, por exemplo, na era do assédio sexual. Nesse pormenor, apenas para entrar num detalhe, Steiner acredita que nos isolamos na senda do politicamente correto. Reduzir, digamos, o relacionamento de Heidegger e Arendt a uma questão de sexual harassment é limitar demais as possibilidades. Afinal, como disse
Colm Tóibín, qual a graça de ser professor (e de acumular mestrados e doutorados), se não se puder nem mais dormir com os estudantes? A verdade é que o comezinho não tem lugar na prosa de George Steiner. Ele não engrossa o coro populista de elevar, vá lá, a cultura popular à categoria de grande arte – porque, apesar do apelo irresistível, simplesmente o lowbrow nunca vai chegar lá. Por outro lado, Steiner tem uma das linguagens acadêmicas mais límpidas de que se tem notícia e pode-se lê-lo, sem prejuízo da compreensão, no trem, no metrô ou no ônibus. Ele é tão agradável falando dos Pré-Socráticos quanto da ligação entre Virgílio e Dante, quando de Kepler e Tycho Brahe. A sensação, ao percorrer cada capítulo de Lições dos Mestres é que nada mais importa; e a constatação, eterna, de como perdemos tempo com assuntos menores, quando existe um mundo maravilhoso de homens e idéias que o nosso tempo insiste em deixar para trás. A batalha de George Steiner não deve ser solitária, contudo; engrossar suas fileiras é um imperativo não apenas seu mas da civilização.

SENNET, RICHARD








RICHARD SENNET

Nascido num bairro pobre e violento de Chicago, Richard Sennett escapou do destino pouco promissor que aquele ambiente lhe reservava. Uma família de militantes de esquerda e o dom musical o salvaram. Criança ainda, tocava violoncelo em concertos e compunha. A carreira, no entanto, seria interrompida antes dos 20 anos devido a uma lesão muscular. Foi então que começou a nascer o sociólogo e autor de livros elogiados, como "O Declínio do Homem Público".A flexibilidade exigida do trabalhador atual, assunto recorrente na obra de Sennett, pode ser observada na própria biografia do autor. No caso dele, a guinada deveu-se a uma circunstância pessoal; para a maioria, ela decorre das transformações por que passam as empresas.Em que pese sua trajetória de sucesso, Sennett, que, aos 63 anos, mora em Londres e leciona na London School of Economics, é crítico em relação aos efeitos dessa flexibilidade sobre a sociedade e os indivíduos.



LIVRO ESCOLHIDO – EDITORA RECORD



A CORROSÃO DO CARÁTER (L!)



Dois livros, recém-editados, discutem a idéia de caráter moral. O primeiro, "A Corrosão do Caráter" (Editora Record), de Richard Sennett, de forma explícita; o segundo, "O Que é a Filosofia Antiga" (Editora Loyola), de Pierre Hadot, de modo tangencial, mas com igual sensibilidade crítica. A relevância dos livros para o debate ético entre nós é enorme.Usamos a palavra caráter, na língua corrente, para falar da maneira como a pessoa sente, pensa e age em face dos ideais morais estabelecidos. "Ter caráter", como assinala o dicionário "Aurélio", significa ser alguém "firme, coerente nas atitudes e com domínio de si". Ora, Sennett e Hadot mostram que o caráter moral não é uma manifestação irrefletida de nossos anjos ou demônios interiores. "Ter caráter" é um aprendizado, uma disciplina do espírito que depende do esforço individual, mas também dos meios culturais à disposição dos indivíduos.Na Antiguidade clássica e nos primórdios do cristianismo, diz Hadot, a busca da felicidade implicava sobretudo a luta contra as paixões da alma. O caráter era forjado na ascese pessoal, cujo objetivo era o controle dos prazeres ilusórios, que não eram apenas os prazeres do sexo, da comida ou da bebida, como costumamos pensar, mas, principalmente, os prazeres do poder, do dinheiro, da ostentação, da ira, da vingança ou da vaidade. Estóicos, epicuristas, céticos, cristãos etc. viam na razão e na vontade os meios de anular a cegueira moral das paixões e alcançar a moderação necessária à realização da justiça. A força do caráter era dada pela capacidade de bem governar a si ou aos outros.Na modernidade ocidental, como fez ver Sennett, ocorreu uma radical alteração do "ethos" antigo: o cuidado com o caráter deu lugar à preocupação com a "personalidade". O outro deixou de ser o fiador da fidelidade do sujeito ao bem comum para se tornar o cúmplice ansioso ou "voyeurista" de suas idiossincrasias psicológicas. A privacidade burguesa criou a "tirania da intimidade" e nos levou a crer que a felicidade consiste, quase exclusivamente, em satisfazer as aspirações da vida afetiva. O bem-viver não era mais descrito como realização das virtudes públicas, mas como satisfação sentimental. Em "A Corrosão do Caráter", Sennett dá um passo a mais na análise das metamorfoses da subjetividade. A cultura da intimidade, ao deslocar o centro da identidade pessoal do público para o privado, gerou um fator de instabilidade permanente na consciência de si. Os afetos, em especial os afetos sexuais, se mostraram incapazes de fornecer critérios duradouros para o julgamento ético do que somos ou queremos ser, dada a própria maneira como se constituem. Ou seja, uma das formas que temos de saber "o que é uma emoção privada" é justamente poder reconhecer o fenômeno mental sentido como algo que independe do escrutínio público para ser julgado bom ou mau. A vida emocional íntima, ao contrário da vida pública, é aquela em que podemos exercer, livremente, o direito à experimentação em matéria de estilização de preferências ou inclinações. Essa é a marca original e irrepetível da "personalidade" privada. A liberdade íntima, entretanto, tem um ônus. Decidir, sozinhos, se o que vivemos emocionalmente é bom ou mau pode ser uma tarefa hercúlea. O justo caminho pode se revelar, rapidamente, um descaminho, e a certeza de hoje pode se mostrar, amanhã, auto-engano, obrigando-nos a rever verdades recentes sobre nós mesmos. O efeito cultural da "tirania da intimidade" não foi, portanto, a autonomia em relação ao "outro público", mas a dependência transferida para os técnicos em normalidade psicológica. No entanto, a erosão da confiança em si, provocada pela fé na "sabedoria dos sentimentos", foi contrabalançada pela permanência de outras instâncias formadoras de identidade, entre as quais o trabalho. O valor do trabalho e o apreço pela competência profissional continuaram sendo estímulos para que o sujeito continuasse a se ver como alguém potente para agir com retidão e eficiência. Podíamos ter perdido a atração pela ação política; podíamos estar confusos quanto ao valor moral de muitas experiências emotivas, mas dispúnhamos de critérios razoavelmente claros e partilhados para avaliar a criatividade e a produtividade de cada um, no processo de fabricação de artefatos úteis ao mundo. Atualmente, mesmo esse frágil gancho com o que está "fora de nós" veio abaixo. Com as novas regras da livre concorrência, a insegurança da vida sentimental se estendeu à vida profissional. Qualquer parceria se tornou precária. A presença do outro não mais suscita apelo à colaboração, mas sim desejo de instrumentalização. Tornamo-nos uma multidão anônima, sem rosto, raízes ou futuro comum. E, se tudo é provisório, se tudo foi despojado da dignidade que nos fazia querer agir corretamente, quem ou o que pode apreciar o "caráter moral" de quem quer que seja? Na cultura da "flexibilidade", como reza o jargão neoliberal, ou fingimos acreditar em valores que não mais existem ou acreditamos, verdadeiramente, em miragens - e a alienação é ainda maior. Isolados do público, pela paixão dos interesses privados, e dos mais próximos afetivamente, pela degradação do trabalho e pela volubilidade sentimental, erramos em direção ao nada ou a qualquer coisa. Tanto faz o bem e o mal, o justo e o injusto, quando o que temos como guia é o bem-estar do corpo e das sensações.Resta acreditar que "consumir objetos de desejo" é o mesmo que "satisfazer desejos". Enquanto acreditamos nisso, o show continua: no desfile das drogas, cartões de crédito, pornografia na Internet etc. No momento em que deixamos de acreditar, a "alegria" muda de endereço: passa de nossos corpos para as mãos de quem comanda o espetáculo. Vide a epidemia de violência imotivada e distúrbios físico-mentais que fazem a "festa" dos patrões da indústria de armamentos e de medicamentos. Hadot e Sennett, é óbvio, não nos convidam a ser viúvas de Atenas, Roma ou Londres e Paris de fim de século. Ambos são mais sábios ou sagazes, como se preferir. Dizem, apenas, que o sentido da vida e da morte não se contabiliza. Podemos mudar o vocabulário que deu sentido à palavra "caráter", e por que não? Podemos criar formas inéditas de avaliar o bem e o mal que nos convêm, e por que não? Só duvido que possamos rebaixar nossa imaginação criativa a ponto de reduzi-la à bisonha e miserável rotina de acumular dinheiro, compulsiva e indefinidamente, sem jamais perguntar por quê e para quê?

SEGANFREDO, CARMEM & FRANCHINI, A. S.

CARMEM SEGANFREDO & A. S. FRANCHINI
Carmen Seganfredo nasceu em 1956, é bacharelada em Letras e tradutora. Vive em Porto Alegre
A.S. Franchini nasceu em 1964, é formado em direito e tradutor. Junto com Carmem Seganfredo escreveu os seguintes livros: Os irmãos Pitowkers (Sulina, 1999), As 100 melhores histórias da mitologia (L&PM, 2003), Em mares nunca navegados (Artes e Ofícios, 2003), As melhores histórias da mitologia nórdica (Artes e Ofícios, 2004), e Deuses, heróis & monstros – as asas de Ícaro e outras histórias da mitologia para crianças (L&PM, 2005).

LIVRO ESCOLHIDO – L&PM EDITORES

AS 100 MELHORES HISTÓRIAS DA BÍBLIA (L!)
As histórias da Bíblia são referências culturais no mundo inteiro. A influência do livro sagrado é notória na sociedade atual, tornando necessário o conhecimento de seus episódios e principais personagens. Por ser longo e de difícil leitura, o texto acaba afastando os leitores. E é por isso que a L&PM Editores lança a obra As 100 melhores histórias da Bíblia.Através de uma cuidadosa seleção realizada por Carmen Seganfredo e A.S. Franchini, este livro tornou-se possível, trazendo aos interessados a oportunidade de conhecer melhor os principais acontecimentos que marcaram a história judaico-cristã. Independente de religião ou credo, sua leitura é imprescindível para entender a nossa cultura, tão influenciada pelas histórias aqui contidas.O livro parte da criação do mundo e passa por todos os principais eventos da vida de Jesus Cristo, de seu nascimento à ressurreição. A seleção conta com histórias do Antigo e do Novo Testamento, incluindo A arca de Noé, A torre de Babel e Os dez mandamentos, além de apresentar todos os personagens mais importantes da Bíblia, como Abraão, Davi e Sansão.

SEBALD, W. G.




W. G. SEBALD

“Se o passado preocupasse mais as pessoas, os eventos que tanto nos afligem talvez ocorressem com menos freqüência. Pelo menos, a sós consigo mesmo em seu próprio quarto, não se faz mal a ninguém.”


Naturalidade
Bavária, Alemanha
Formação
Liceu Obersdorf, graduando-se em seguida em literatura alemã pela Universidade de Freiburg.
Outras atividades
Sebald seguiu uma carreira acadêmica concentrada especialmente na Universidade de East Anglia, onde se tornou professor de literatura européia e criou o Centro Britânico para Tradução Literária.
Você sabia?
Sebald não acreditava que os escritores lograssem tratar diretamente de temas como os horrores do Holocausto sem que caíssem nas armadilhas do sensacionalismo ou do sentimentalismo.
Opinião crítica
Aclamado por Susan Sontag como o “mestre contemporâneo da literatura do lamento e da inquietação mental”, sua súbita morte num acidente de automóvel privou o meio literário de uma das suas figuras mais originais. Os Emigrantes, seu primeiro livro traduzido para o inglês e publicado em 1996, recebeu vários prêmios na Alemanha e foi uma das estréias mais elogiadas da década. As traduções de Os Anéis de Saturno (The Rings of Saturn) em 1998 e Vertigem (Vertigo) em 1999 – também pelo poeta Michael Hulse – selaram sua reputação de maneira definitiva. Ao focar a história a partir de um olhar oblíquo em que combinava gêneros literários e dissipava as fronteiras entre fato e ficção e arte e documentário (recorrendo freqüentemente a nomes reais e fotografias), Sebald escreve num estilo que ele mesmo denominou “ficção em prosa”.
Obras recomendadas
Austerlitz, o derradeiro romance de Sebald, é amplamente reconhecido como seu tour-de-force. A história envolve um homem de seus 50 anos que recupera as lembranças de sua chegada à Inglaterra, vindo de Praga, a bordo do Kindertransport. Suas obras anteriores compõem uma trilogia onde se exploram questões como memória, exílio e identidade européia. No rastro de sua estrela literária em alta, mereceram traduções também sua poesia ‘Após a Natureza’ (After Nature) assim como sua obra de não-ficção ‘Sobre a História Natural da Destruição’ (On the Natural History of Destruction), em que aborda o bombardeio das cidades alemãs pelas forças aliadas.
Influências
Sebald tem sido comparado a Borges, Calvino, Thomas Bernhard, Nabokov e Kafka; em suas ficções em prosa, pode-se-lhe creditar a invenção de uma nova forma literária parte romance híbrido, parte memórias, parte narrativa de viagem.
Leia, portanto.
Tente qualquer um dos autores acima mencionados. Sebald era um fervoroso admirador de Elias Canetti, outro autor europeu exilado na Inglaterra.


LIVRO ESCOLHIDO – EDITORA RECORD


OS EMIGRANTES


O narrador das histórias do escritor alemão W.G. Sebald, morto em dezembro numa estrada do interior da Inglaterra, é sempre o mesmo: um peregrino em busca do conhecimento. Lastima que só encontre ignorância no fim do caminho. Sebald, gigante da literatura contemporânea, de quem a Record lança Os Emigrantes, morreu justamente quando chegou ao topo. Ia receber o importante prêmio literário National Book Critics Circle por Austerlitz, seu último livro. A rigor, não se pode dizer que Sebald morreu, porque ele empresta seu nome ao narrador de seus livros. Publicado em alemão há dez anos, Os Emigrantes, síntese de sua obra, lida com essa questão da identidade. Conta a saga de quatro pessoas que abandonam o país em que nasceram. São eternos nômades numa terra devastada. O narrador investiga o passado desses emigrantes, o primeiro deles um senhor lituano atormentado pela idéia do êxodo. No segundo capítulo, um professor compreende o que significa não ser ariano após lutar como soldado do exército alemão e descobrir que seu avô era judeu. Você já leu histórias parecidas antes nos livros do austríaco Thomas Bernhard, implacável crítico do anti-semitismo.
Há muitos pontos em comum entre Sebald e Bernhard, mas, como lembrou Susan Sontag, também entre Sebald e Stendhal, outro escritor viajante. Mais um elo com Stendhal é a paixão pela música. Os Emigrantes é um quarteto com uma conclusão trágica: só nos resta o crédito no narrador da história alheia, que ele defende como se fosse a própria.

SCLIAR, MOACYR



MOACYR SCLIAR

Nasceu em Porto Alegre, em 1937. É formado em medicina, profissão que exerce até hoje. Autor de uma vasta obra que abrange conto, romance, literatura juvenil, crônica e ensaio, recebeu numerosos prêmios, como o Jabuti (1988 e 1993), o APCA (1989) e o Casa de las Americas (1989). Já teve textos traduzidos para doze idiomas. Várias de suas obras foram adaptadas para o cinema, a televisão e o teatro. Em 2003, tornou-se membro da Academia Brasileira de Letras.


LIVRO ESCOLHIDO – EDITORA COMPANHIA DAS LETRAS


OS VENDILHÕES DO TEMPLO (L!)


A expulsão dos vendilhões do Templo de Jerusalém - relatada em poucas linhas do Evangelho de São Mateus - é o ponto de partida para uma narrativa original, que se desdobra em três épocas: 33 d.C., 1635 e os nossos tempos.Na primeira parte, ambientada na Jerusalém da época de Cristo, o episódio bíblico é visto pela ótica de um dos vendilhões, camponês arruinado que chegou à cidade em busca de melhores dias e descobriu no comércio do Templo o trampolim para projetos mirabolantes. A trajetória de Cristo é vista indiretamente pelo olhar desse seu obscuro contemporâneo, e a vida cotidiana na Terra Santa é descrita com humor e vivacidade.Na segunda parte da obra, a narrativa dá um salto no tempo e no espaço. Em 1635, Nicolau, um jovem padre, chega a uma pequena missão jesuítica do sul do Brasil e se vê envolvido numa situação angustiante: com a morte súbita do sacerdote que dirigia a missão, torna-se responsável por uma comunidade indígena cujo idioma não fala. Um forasteiro se oferece como intérprete, mas em pouco tempo seu caráter suspeito se manifesta. A terceira parte do livro - a final - se passa nos dias de hoje, na cidade surgida a partir da aldeia jesuítica. A esquerda comemora a conquista da prefeitura. Um assessor de imprensa testemunha essas mudanças ao mesmo tempo em que, com ex-colegas de colégio, relembra a peça teatral encenada pelo grupo na infância, tendo como tema o episódio da expulsão dos vendilhões do Templo. As três histórias se entrelaçam e se iluminam umas às outras, desdobrando de maneira inesperada o núcleo temático do episódio bíblico, com diversas possibilidades cômicas e dramáticas e focalizando suas implicações morais. A exemplo do que fez no premiado A mulher que escreveu a Bíblia, Scliar parte da narrativa bíblica para traçar um painel muito pessoal e bem-humorado dos dilemas de nosso tempo.