SCHNITZLER, ARTHUR



ARTHUR SCHNITZLER



Arthur Schnitzler nasceu em 1862, em Viena (Áustria), filho de um famoso médico. Cresce em um ambiente em que se cultivava poesia, pintura e literatura; seu pai recebia em casa importantes personagens da cidade. Começa a carreira literária aos 18 anos, com a publicação de A Canção de Amor da Bailarina. Forma-se em medicina, em 1885, pela Universidade de Viena. Nos três anos seguintes foi assistente de um cirurgião. Interessa-se pelo estudo da psiquiatria, participando de congressos científicos em vários países. Exerce a profissão até 1894, quando decide dedicar-se à literatura. Como escritor, fica conhecido com a publicação de Anatol (1893) e Ronda (1897), peças de teatro que descrevem a atmosfera de erotismo e melancolia da Viena do fim-de-século - e causaram escândalo quando encenadas. Como escritor e também como psicólogo, Schnitzler antecipou idéias do criador da psicanálise, Sigmund Freud. O Caminho Solitário (1908) trata do anti-semitismo da época, mesmo tema de sua tragédia Professor Bernhardt (1912). Autor de muitos outros livros, entre os quais O Retorno de Casanova (1918), Senhorita Else (1924) e Breve Romance de Sonho (1926), Arthur Schnitzler morreu em Viena, em 1931.

LIVRO ESCOLHIDO - EDITORA RECORD

CRÔNICA DE UMA VIDA DE MULHER (1928)
(Por Noemi Moritz Kon)
Numa carta datada de 14 de maio de 1922, Sigmund Freud faz — segundo suas próprias palavras — uma “confissão”. Já consagrado como criador da psicanálise e dizendo-se próximo do “fim da vida”, o médico vienense afirma ao destinatário que por muitos anos o havia evitado, pois o tomava, com admiração e temor, como seu “duplo”. Alguém que, como ele, era “um explorador das profundezas”, que apreendia as “verdades do inconsciente” e desmontava “as convenções sociais”. “Sempre que me deixo absorver profundamente por suas belas criações”, escreve Freud ao seu interlocutor, “parece-me encontrar, sob a superfície poética, as mesmas suposições antecipadas, os interesses e conclusões que reconheço como meus próprios.” E concluía: “Ficou-me a impressão de que o senhor sabe por intuição — realmente, a partir de uma fina auto-observação — tudo que tenho descoberto em outras pessoas por meio de laborioso trabalho”.Quem poderia ser esse a quem Freud se ligava por “uma estranha familiaridade”, alguém a quem se equiparava no trabalho monumental de construir a psicanálise e na escuta do discurso das mulheres e da histeria? Um discurso que, sistematizado em sua obra, estabeleceu o papel decisivo do desejo sexual nas ações humanas e permitiu a irrupção no pensamento ocidental das idéias de inconsciente e do homem dividido, cruciais para as décadas que viriam. O “duplo” assim declarado por Freud chamava-se Arthur Schnitzler (1862-1931). Conhecido como doctor poe­ta, o dramaturgo, contista, ensaí­s­ta, novelista e romancista foi um dos poucos escritores da Viena fin-de-siècle que adquiriu importância duradoura. Neste mês, sai no Brasil — pela primeira vez — o romance Crônica de uma Vida de Mulher, um dos livros de Schnitzler que mostram a proximidade de seus temas com os de Freud.Em parte, essa proximidade pode ser explicada pela origem de ambos — os dois eram judeus destacados da burguesia da Viena da virada de século, centro do Império Austro-Húngaro, cuja prosperidade e vigor cultural marcariam profundamente o pensamento ocidental nas décadas subseqüentes. Enquanto Freud era filho do pequeno comerciante Jacob Freud, Schnitzler provinha de uma família de médicos da alta burguesia liberal. Seu pai, Johann Schnitzler, era reconhecido por seu trabalho em consultório particular, como editor do Jornal Médico de Viena e por seu cargo de direção na Policlínica da cidade. Nesse meio, Schnitzler cresce entre apreciadores das artes e gente do teatro, recebendo sólida instrução em música e línguas estrangeiras. Precoce, aos 18 anos já tem 23 dramas acabados e 13 iniciados.
“NÃO SE PODE SER PLENO POETA E PLENO MÉDICO AO MESMO TEMPO” (Schnitzler, numa anotação no diário, em 1880)
Apesar de suas reconhecidas qualidades artísticas, Schnitzler cede à pressão paterna e se decide pela profissão de médico. Um ano depois de começar os estudos, em 15 de maio de 1880, descre­ve em seu diário o dilema que vive: “Posso medi­tar o quanto quiser sobre a íntima ligação entre medicina e poesia, e, não obstante, permanece verdade que não se pode ser pleno poeta e pleno médico ao mesmo tempo. Jogado para lá e para cá entre ciência e arte, não entrego meu pleno eu a nenhuma das duas e me atrapalho pela poesia no trabalho e pelo trabalho na poesia”. Ainda assim, Schnitzler mantém as tradições familiares. Recebe seu título de doutor, especializa-se em laringologia e, em 1886, faz seu estágio médico — como Freud — na clínica de Theodor Meynert, renomado psiquiatra que trabalha experimentalmente com as técnicas de hipnose e sugestão.
Freud e Schnitzler poderiam ter seguido a mesma carreira. Ironicamente, o mesmo evento — a morte de seus pais — os levou a caminhos opostos. Com a morte de Johann, em 1893, Schnitzler se afastou da medicina para tomar em definitivo o caminho da literatura; já a morte de Jacob, em 1896, foi a oportunidade para que Freud criasse sua grande obra, A Interpretação dos Sonhos (1900). Nela, foram construídos, a despeito do repúdio da intelligentsia médica e de uma sociedade de inclinações anti-semitas, os alicerces de sua nova ciência: um aparelho psíquico inédito e com dinâmica própria, no qual surgiam figuras conceituais tais como o inconsciente, o recalque e a sexualidade infantil.
Cada um a seu modo, os dois denunciaram a hipocrisia de sua sociedade, a falsa harmonia de um império, o Austro-Húngaro, assolado por diferenças sociais e nacionais — tensões que resultariam, no fim da Primeira Guerra Mundial, na desintegração do país. Para ambos, a espessura do social é diminuta ante a força dos impulsos sexuais e do determinismo psíquico calcado na polaridade amor e morte. O jogo político é neutralizado, sendo reduzido a categorias psicológicas. Tanto na obra de Freud como na de Schnitzler, o tom é de ceticismo. Ceticismo com relação a uma sociedade que se desarranja e busca escamotear sua face real. Ceticismo quanto às capacidades humanas de dar conta de seus problemas pela via da razão e da moral.Assim como a de Freud, também a obra de Schnitzler provoca escândalo. Pois, à diferença da maior parte da literatura austríaca da época, que ressaltava a suposta harmonia do império comandado pela dinastia dos Habsburgo, Schnitzler evidencia e combate a hipocrisia da sociedade decadente. É contra o mito habsbúrgico que se manifesta Schnitzler — mito que, como diz o crítico italiano Claudio Magris, “não é um simples processo de transfiguração do real, próprio de toda atividade poética, mas é a completa substituição de uma realidade histórico-social por uma outra fictícia e ilusória, é a sublimação de uma sociedade concreta por um pitoresco, seguro e ordenado mundo de fábula”.Schnitzler abordará, em suas obras, homens e mulheres em situações de desespero pela ruína financeira ou familiar, pelo jogo, pelo endividamento ou, ainda, pelo incesto, adultério e abandono, mas que ainda assim se mantêm fiéis aos códigos consagrados de aparência social. Exibe com crueza os desejos e a repressão na mulher e as relações de fachada dos “bons casamentos”. Evidencia também a hipocrisia dos princípios religiosos e expõe os sentimentos anti-semitas da sociedade vienense.
“AMBOS, O POETA E o PSICANALISTA,OLHAMOS ATRAVÉS DA JANELA DA ALMA”(Schnitzler, numa entrevista em 1927)
Com Freud, Schnitzler compartilhará a idéia de que a verdadeira motivação humana são os desejos se­xuais, desejos capazes de destruir todas as barreiras sociais e morais. É assim com sua Senhorita Else (1924), que, por meio de um monólogo interior, denuncia ter sido oferecida a um lascivo barão como pagamento das dívidas de jogo do próprio pai. Ou, ainda, com o belo e próspero casal de Breve Romance de Sonho (1926), que tem sua vida totalmente transformada no momento em que Albertine expõe para o dr. Fridolin seus desejos eróticos. A história foi adaptada com sucesso para o cinema por Stanley Kubrick em De Olhos bem Fechados (1999). Em Crônica de uma Vida de Mulher (1928), Schnitzler se detém de maneira amarga na vida de desventuras de Therese Fabiani. Após a derrocada da família, motivada pela loucura do pai, ela enfrentará a sociedade corrompida e decadente da Viena daquele período. Desorientada — no sentido de ser desprovida de um norte moral —, ela pula de emprego em emprego, buscando sua redenção em um casamento que não se concretiza. Em uma ocasião, engravida de galanteador pobre. Anos mais tarde, ela será morta pelo próprio filho, um ilegítimo como muitos daquele tempo.“Schnitzler”, escreve o estudioso austríaco Wolfgang Bader, “sempre atravessa os limites do que é meramente agradável e do tabu moral, indo em direção à verdade não expressa. O que irritava a mentalidade do público não era o fato de aquilo ser verdadeiro, mas tão-só ter sido mostrado e, com isso, ter acabado com o consenso da bela ilusão sobre o qual a sociedade fundava sua coesão.”A proximidade com a psicanálise se dá também no nível formal. Em 1901, em O Tenente Gustl, Schnitzler introduz o fluxo de consciência na narrativa de língua alemã, o que, na visão do crítico tcheco J. P. Stern, seria “o correspondente do mé­todo psicanalítico” na literatura germânica. Mas, mesmo nesse texto que poderia traduzir prioritariamente uma crítica contundente às instituições sociais, Schnitzler se atém aos conflitos internos da personagem, dando assim a entender que, de seu ponto de vista, o social parece ter pouca importância diante da intensidade dos conflitos internos.Esse percurso foi acompanhado à distância por Freud. Ao longo de suas trajetórias, os dois médicos — o cientista e o poeta — pouco tiveram contato. À “confissão” feita por Freud seguiram apenas alguns breves encontros. No mais, instalou-se o silêncio, apenas adornado por alguns bilhetes, cartões de visita e troca de cumprimentos. Na referida carta de 1922 a Schnitzler, Freud se recrimina, pois “durante todos esses anos nunca procurei sua companhia e usufruí uma conversa com o senhor”. Freud acreditava, de fato, que o escritor havia se aproximado por demais do universo próprio à psicanálise, mas por meios muito diversos. E isso o incomodava. Compreende-se, então, que o receio de uma maior intimidade com o poeta por parte do médico denuncia a profunda ambigüidade, marcada pela sedução e também pelo terror, que o liga à fantasia, à imaginação, suporte maior da criação artística.Em Estudos sobre a Histeria (1893-1895), Freud escreve com certo desconforto: “A mim causa singular impressão comprovar que minhas histórias clínicas carecem, por assim dizer, do severo selo da ciência, e que apresentam mais um caráter literário. Mas consolo-me pensando que este resultado depende inteiramente da natureza do objeto, e não de minhas preferências pessoais. O diagnóstico local e as reações elétricas não têm eficácia alguma na histeria, enquanto uma exposição detalhada dos processos psíquicos, tal como estamos habituados a encontrar na literatura, me permite chegar, por meio de um número limitado de fórmulas psicológicas, a um certo conhecimento da origem de uma histeria”.Assim, da parte de Freud, assumir diante de um outro a estranha familiaridade que o uniria a seu duplo-Schnitzler traduz um intenso trabalho de superação da resistência diante da percepção da atividade da fantasia em sua própria disciplina. Freud preferiria abrigar-se sob o severo selo da ciência, distanciando-se do solo incerto sobre o qual habita o criador. Já Schnitzler parece ter superado seu dilema juvenil, assumindo sem medo a via artística. Em uma entrevista, em 1927, o escritor austríaco faz uma alusão à carta de Freud transcrita acima: “Por algum aspecto eu me constituo no ‘duplo’ do professor Freud. Ele me definiu certa vez como seu gêmeo psíquico. Na literatura percorro a mesma estrada sobre a qual Freud avança com uma temeridade surpreendente na ciência. Entretanto, ambos, o poe­ta e o psicanalista, olhamos através da janela da alma”.

KOHAN, MARTIN


MARTIN KOHAN

Martín Kohan nasceu em Buenos Aires, Argentina, em janeiro de 1967. Ensina Teoria Literária na Universidade de Buenos Aires e na Universidade da Patagônia. Publicou três livros de ensaio: “Imágenes de vida, relatos de muerte. Eva Perón, cuerpo y política” (1998, em colaboração com Paola Cortés Rocca); “Zona urbana. Ensayo de lectura sobre Walter Benjamin” (2004) e “Narrar a San Martín” (2005); dois livros de contos: Muero contento (1994) e Una pena extraordinaria (1998); e seis romances: La pérdida de Laura (1993), El informe (1997), Los cautivos (2000), Dos veces junio (2002), Segundos afuera (2005) y Museo de la Revolución (2006). Zona urbana foi editado na Espanha por Trotta; já Segundos afuera e Museo de la Revolución, por Mondadori. Em 2007, sob o pseudônimo Miguel Cané, ganhou o 25º Prêmio Herralde, com seu romance Ciências morales. Suas obras estão sendo publicadas em editoriais de prestígio como Einaudi na Itália, Serpent’s Tail no Reino Unido, Seuil na França e Suhrkamp, na Alemanha.
Em agosto de 2006, o autor argentino compareceu ao 7º Salão de Leitura de Belo Horizonte, Minas Gerais. Foi entrevistado por Graciela Ravetti de Gomes, PhD. em Teoria Literária pela Universidad de Valladolid, Espanha, e falou sobre seu livro “Dos Veces Junio” (Duas Vezes Junho, publicado no Brasil em 2005 pela Editora Amauta) e sua famosa frase inicial: “A partir de que idade se pode começar a torturar uma criança?” Contou sobre suas experiências durante a ditadura argentina, quando tinha apenas nove anos. Falou também sobre o papel do futebol na propagação de idéias nacionalistas que serviam à ditadura: muitos argentinos juram que viram a Copa de 78 em cores, embora não tenha sido transmitida em cores para o país. Na obra, aparecem duas derrotas argentinas: nas copas de 78 e 82. Segundo Kohan, escrever sobre as derrotas é uma maneira de levantar a memória.


LIVRO ESCOLHIDO - COMAPNHIA DAS LETRAS


CIÊNCIAS MORAIS


"Ciências Morais", novo romance do argentino Martin Kohan, agora lançado no Brasil, se passa no período final da ditadura argentina, quando a aventura insana da Guerra das Malvinas mobilizava o país, em meados de 1982. Maria Teresa é inspetora no super tradicional Colégio Nacional de Buenos Aires, referência cívica e dos "bons costumes". Tímida, sem atrativos e com pouca personalidade, ela se guia pelo extremo rigor das regras do colégio. Para ela, é Deus no céu e o diretor na Terra. Sua mãe, a própria imagem da alienação, vê a televisão no modo "mudo", e espera os postais lacônicos do filho Francisco, enviado para a Guerra das Malvinas.Bisugatto, o chefe dos inspetores, é um sujeito decididamente desagradável. No passado recente ele foi responsável por fazer listas com nomes de alunos do colégio e entregá-las às autoridades militares. Um delator, com todas as letras. Mas, aos olhos admiradores de Maria Teresa, um defensor dos interesses magnos da Pátria.Todo excesso de zelo esconde um desejo inconfessável, e é o que mostra Kohan em sua alegoria, colocando cada gesto de Maria Teresa nas lâminas de seu microscópio literário. Ansiosa por fazer-se notar positivamente pelo chefe e seu bigode severo, a pobre decide esconder-se no banheiro masculino para ver se flagra algum comportamento impróprio. Sua obsessão é o aluno Baragli, que ela intui ser um "subversivo" pelo modo ousado como apóia a ponta dos dedos no ombro da colega da frente na hora da fila, ou pelo jeito provocante com que mostra a perna para provar que está com as meias corretas. Tem certeza de que ele se aproveita das idas ao banheiro para fumar escondido. Chega a descobrir qual loção masculina ele usa, para melhor identificá-lo quando fechada no cubículo, com as pernas encolhidas e as costas apoiadas nos frios ladrilhos.
O livro é todo construído com o olhar isento da terceira pessoa, como se Kohan tentasse, por meio desse expediente, exorcizar o espírito opressor da ditadura, que aqui aparece na sua forma mais comezinha. Mas é tão grande o envolvimento do leitor com a intimidade da personagem que é como se o romance estivesse narrado em primeira pessoa. Perto do final, a leitura ganha densidade psicológica e suspense com uma violenta reviravolta. Kohan consegue, com os poucos elementos de que dispõe, a intensidade de que é feita toda grande obra de literatura. "Ciências Morais" é seu mais recente romance. Recebeu no ano passado o prestigiado prêmio Herralde da Espanha. Para se ter uma idéia da importância do prêmio, entre os últimos vencedores estão o também argentino Alan Pauls, com "O Passado" (em 2003), o espanhol Enrique Vila-Matas, com "O Mal de Montano" (em 2002), e o chileno Roberto Bolaño, com "Os Detetives Selvagens" (em 1998), todos do primeiríssimo time.

ZIZEK, SLAVOJ

SLAVOJ ZIZEK


Nascido na Eslovénia em 1949, quando a bela cidade de Ljubljana ainda era capital de uma das repúblicas jugoslavas, Slavoj Žižek foi-se tornando, ao longo da última década, um dos nomes mais em foco no circuito académico internacional. Partindo tanto de Karl Marx como de Jacques Lacan, cujos dificílimos conceitos psicanalíticos estudou em profundidade, Žižek cruza, de forma surpreendente, os mais áridos termos filosóficos com referências concretas da cultura popular – dos filmes comerciais de Hollywood ao mundo da publicidade. Num dos capítulos finais de Elogio da Intolerância, por exemplo, ao discutir o impacto do Viagra na libido masculina, fala da “erecção” recorrendo a Santo Agostinho e à crítica da mercantilização em Adorno... Além disso, a voraz necessidade de ler os sinais do mundo em que vivemos levam-no a integrar nas suas obras, quase em tempo real, uma multiplicidade de acontecimentos em curso – seja o conflito no Médio Oriente, o furacão Katrina, os carros incendiados na periferia parisiense ou o balanço do papado de João Paulo II (um “falhanço ético”, devido ao poder crescente concedido à Opus Dei e à incapacidade de lidar com a pedofilia no seio da Igreja). Embora mantenha o lugar no Instituto de Sociologia de Ljubljana, Žižek lecciona em várias universidades europeias e americanas. Nómada e poliglota (fala seis línguas), profere conferências em todas as latitudes, num registo caótico, a que o seu look desalinhado e mal vestido (nada de casacos ou gravatas) confere a inevitável aura de esquerdista com glamour. A principal crítica que lhe fazem é a da “inconsistência”: não raro, os seus textos contradizem-se ou refutam-se. Nada que o preocupe por aí além. Tal como Lacan, está permanentemente a “actualizar” as suas teorias. Com uma bibliografia que já vai em 50 livros (traduzidos em mais de 20 línguas), a que se juntam centenas de artigos, Žižek publicou em Fevereiro deste ano o seu opus magnum: um calhamaço de 500 páginas (The Parallax View, MIT Press) em que procura reabilitar o materialismo dialéctico.Homem prático, foi candidato (em 1990) à Presidência da Eslovénia, nas primeiras eleições livres após a dissolução da Jugoslávia. Não o escolheram por um triz.
LIVROS ESCOLHIDOS - JORGE ZAHAR EDITOR

1) ROBESPIERRE: VIRTUDE E TERROR


2) MAO: SOBRE A PRATICA E A CONTRADIÇÃO


(Artigo de Antonio Luiz Monteiro Coelho da Costa em Carta Capital n.506)

“Ora (direis) ouvir Mao Tsé-tung! Certo, perdeste o senso.” Mas é o que Slavoj Zizek propõe em Mao: Sobre a prática e a contradição. Também convida a escutar o mais famoso dos cortadores de cabeça em Robespierre: Virtude e terror. As duas obras aprofundam, com personagens ainda mais controvertidos, a reflexão iniciada com a reintrodução de Lenin por Zizek em Às Portas da Revolução, editado pela Boitempo em 2005. Trata-se, diz o esloveno, de fazer-lhes uma crítica implacável sem deixar de reivindicá-los para a esquerda e responsabilizar-se pelo passado que a constituiu. Nada de atribuir “maus” resultados ao traidor ou intruso que corrompeu a pureza do ensinamento original, pois este tem a necessidade inerente de ser “traído”, tirado do contexto original, lançado em um cenário estranho e assim se tornar universal. Só depois de reconhecer isso é possível diagnosticar o que, no plano abstrato, estava certo ou errado. Mao precisou trair Lenin tanto quanto este traíra Marx. Só assim poderia fazer algo tão temível: politizar e pôr em movimento centenas de milhões de trabalhadores anônimos do Terceiro Mundo, o que para o Ocidente era a “estranheza radical” asiática, o alienígena “perigo amarelo” – e com tanto vigor que o movimento continua hoje, ainda que em direção imprevista, a explosão sem precedentes do dinamismo capitalista na China. A principal traição com a qual Mao contribuiu para a filosofia marxista está, para Zizek, nas elaborações sobre a idéia da contradição. A contradição principal – a luta entre proletariado e burguesia – não se sobrepunha à que deveria ser tratada como dominante no caso concreto – por exemplo, a luta contra o imperialismo japonês, que unia chineses de todas as classes. Também, conforme a situação, o fator superestrutural, subjetivo de uma contradição era ou não mais importante que o material. Era preciso distinguir contradições “antagônicas” e “não antagônicas”. São pontos que, para Zizek, merecem consideração: insistir na centralidade da contradição principal no momento errado é “oportunismo dogmático”. Mao falhou miseravelmente em transpor a negatividade revolucionária em uma ordem nova e positiva. Segundo Zizek, a raiz do fracasso está na rejeição, ou incompreensão, da síntese dialética dos contrários, que não é simples conciliação, mas a superação dos termos da contradição. Para o líder chinês, o resultado da luta era a destruição de um lado, o que o aprisionava a uma luta infinita. Não é mera firula filosófica. Dessa perspectiva “cósmica”, Mao desprezava os custos humanos dos projetos. Nem o risco de destruição do planeta pela guerra nuclear lhe importava. Daí também a negação interminável e autodestrutiva da Revolução Cultural, reduzida, no final, a uma destruição impotente por incapacidade de gerar o novo e superar o passado.Ainda assim, o autor vê como positiva a ousadia de Mao e Robespierre e repete com este: “Cidadãos, queríeis uma revolução sem revolução?” Não há revolução que respeite as normas preexistentes. Toda explosão democrática autêntica tem uma dimensão de “terror”, a imposição brutal de uma nova ordem. Zizek chega a propor a reinvenção do terror democrático como forma de enfrentar a ameaça da catástrofe ecológica: justiça igualitária estrita (impor as mesmas normas em todo o mundo para consumo de energia per capita, sem culpar o Terceiro Mundo), terror (punição aos violadores das medidas impostas, inclusive com limitações das “liberdades”), voluntarismo (decisões coletivas contra a lógica “espontânea” do desenvolvimento capitalista) e confiança no povo (apostar que a maioria apóia as medidas severas e está pronta a controlar seu cumprimento).
Antonio Luiz Monteiro Coelho da Costa em Carta Capital n.506)
“Ora (direis) ouvir Mao Tsé-tung! Certo, perdeste o senso.” Mas é o que Slavoj Zizek propõe em Mao: Sobre a prática e a contradição. Também convida a escutar o mais famoso dos cortadores de cabeça em Robespierre: Virtude e terror. As duas obras aprofundam, com personagens ainda mais controvertidos, a reflexão iniciada com a reintrodução de Lenin por Zizek em Às Portas da Revolução, editado pela Boitempo em 2005. Trata-se, diz o esloveno, de fazer-lhes uma crítica implacável sem deixar de reivindicá-los para a esquerda e responsabilizar-se pelo passado que a constituiu. Nada de atribuir “maus” resultados ao traidor ou intruso que corrompeu a pureza do ensinamento original, pois este tem a necessidade inerente de ser “traído”, tirado do contexto original, lançado em um cenário estranho e assim se tornar universal. Só depois de reconhecer isso é possível diagnosticar o que, no plano abstrato, estava certo ou errado. Mao precisou trair Lenin tanto quanto este traíra Marx. Só assim poderia fazer algo tão temível: politizar e pôr em movimento centenas de milhões de trabalhadores anônimos do Terceiro Mundo, o que para o Ocidente era a “estranheza radical” asiática, o alienígena “perigo amarelo” – e com tanto vigor que o movimento continua hoje, ainda que em direção imprevista, a explosão sem precedentes do dinamismo capitalista na China. A principal traição com a qual Mao contribuiu para a filosofia marxista está, para Zizek, nas elaborações sobre a idéia da contradição. A contradição principal – a luta entre proletariado e burguesia – não se sobrepunha à que deveria ser tratada como dominante no caso concreto – por exemplo, a luta contra o imperialismo japonês, que unia chineses de todas as classes. Também, conforme a situação, o fator superestrutural, subjetivo de uma contradição era ou não mais importante que o material. Era preciso distinguir contradições “antagônicas” e “não antagônicas”. São pontos que, para Zizek, merecem consideração: insistir na centralidade da contradição principal no momento errado é “oportunismo dogmático”. Mao falhou miseravelmente em transpor a negatividade revolucionária em uma ordem nova e positiva. Segundo Zizek, a raiz do fracasso está na rejeição, ou incompreensão, da síntese dialética dos contrários, que não é simples conciliação, mas a superação dos termos da contradição. Para o líder chinês, o resultado da luta era a destruição de um lado, o que o aprisionava a uma luta infinita. Não é mera firula filosófica. Dessa perspectiva “cósmica”, Mao desprezava os custos humanos dos projetos. Nem o risco de destruição do planeta pela guerra nuclear lhe importava. Daí também a negação interminável e autodestrutiva da Revolução Cultural, reduzida, no final, a uma destruição impotente por incapacidade de gerar o novo e superar o passado.Ainda assim, o autor vê como positiva a ousadia de Mao e Robespierre e repete com este: “Cidadãos, queríeis uma revolução sem revolução?” Não há revolução que respeite as normas preexistentes. Toda explosão democrática autêntica tem uma dimensão de “terror”, a imposição brutal de uma nova ordem. Zizek chega a propor a reinvenção do terror democrático como forma de enfrentar a ameaça da catástrofe ecológica: justiça igualitária estrita (impor as mesmas normas em todo o mundo para consumo de energia per capita, sem culpar o Terceiro Mundo), terror (punição aos violadores das medidas impostas, inclusive com limitações das “liberdades”), voluntarismo (decisões coletivas contra a lógica “espontânea” do desenvolvimento capitalista) e confiança no povo (apostar que a maioria apóia as medidas severas e está pronta a controlar seu cumprimento).

REAL, BASTASAR GARZÓN & ROMERO, VICENTE


BALTASAR GARZÓN / VICENTE ROMERO

Baltasar Garzón Real nació el 26 de octubre de 1955 en Torres, Jaén (España). Es un conocido magistrado, juez titular del Juzgado Central de Instrucción número 5. Vicente Romero es uno de los nombres destacados del periodismo español. Desde la guerra de Vietnam a la de Irak ha asistido a los principales acontecimientos mundiales de las últimas décadas.

LIVRO ESCOLHIDO - EDIT. DEL NUEVO EXTREMO

EL ALMA DE LOS VERDUGOS

Extraordinario trabajo de investigación periodística que trata de responder a la pregunta, cómo son, viven y piensan los responsables de los terribles actos que tuvieron lugar en la última dictadura. A través de entrevistas a numerosas víctimas y relatos de los propios verdugos, durante los años de la dictadura argentina, Garzón y Romero retratan y analizan la represión más cruenta que ha tenido lugar en América Latina.

SABATO, ERNESTO

ERNESTO SABATO



Nasceu na província de Buenos Aires, filho de Francisco Sabato e Juana María Ferrari, foi o décimo de onze filhos.
Em 1924 entrou na Escola primária de Rojas. Posteriormente, realizou seus estudos secundários no Colegio Nacional de La Plata. Assim, em 1928 obteve o título de bacharel. No ano de 1929 entrou na Faculdade de Ciências Físico-Matemáticas da Universidade Nacional de La Plata.
Foi um militante ativo do movimento de reforma universitária, fundando o Grupo Insurrexit em 1933, de tendência comunista. Ainda no ano de 1933, foi eleito Secretário Geral da Juventude Comunista. Em um curso conheceu Matilde Kusminsky Richter, uma estudante de 17 anos que abandonou a casa de seus pais para viver com ele.
Em 1934 viajou a Bruxelas como delegado do Partido Comunista ao Congresso contra o Fascismo e a Guerra. Devido aos inconvenientes reinantes em Moscou, abandonou o Congresso e fugiu para Paris. Regressou a Buenos Aires em 1936 e se casou com Matilde.
Em 1938 obteve um Doutorado em Física na Universidade Nacional de La Plata. Graças a Bernardo Houssay, lhe foi concedida uma bolsa anual para realizar trabalhos de investigação sobre radiação atômica no Laboratório Curie em Paris. Nasce seu primeiro filho, Jorge Federico. Em 1939 foi transferido para o Massachusetts Institute of Technology (MIT), deixando Paris antes do estouro da Segunda Guerra Mundial.
Voltou a Argentina em 1940 para ser professor da Universidade de Buenos Aires. Em 1943, devido a uma crise existencial, decide afastar-se definitivamente da área científica, para se dedicar completamente à literatura e a pintura.
Ao final da Segunda Guerra Mundial, em 1945, nasce seu segundo filho, Mario Sábato que será um reconhecido diretor de cinema.
Em 1945 publica seu primeiro livro, Nós e o universo, unm série de artigos filosóficos nos quais critica a aparente neutralidade moral da ciência e alerta sobre os processos de desumanização nas sociedades tecnológicas. Com o tempo, vai construindo uma postura libertária.
1948 marcou o início do repentino prestígio de Sabato: publicou seu primeiro romance, O túnel, de polida construção psicológica de personagens e de apurada narrativa. Enraizada no existencialismo, uma corrente filosófica de enorme difusão no pós-guerra, O túnel recebeu críticas entusiastas de Albert Camus que fez com que a obra fosse traduzida ao francês por Gallimard.
Em 1961 publica Sobre heróis e tumbas, que foi considerada como o melhor romance Argentino do século XX. Se trata de um romance complexo, no qual a história de decadência de uma família aristrocrática se intercala com um comovedor relato intimista sobre a morte do General Juan Lavalle, herói da Independência argentina, e sobre a qual se fez uma peça poética-musical anos depois, com o músico Eduardo Falú, com o título de Romance para a Morte de Juan Lavalle.
"Quando decidi usá-lo em meu romance, não era, de modo algum o desejo de exaltar Lavalle, nem de justificar o fuzilamento de outro grande patriota como foi Dorrego, mas sim de conseguir através da linguagem poética o que jamais se consegue através de documentos de partidários e inimigos; tentar penetrar nesse coração que abriga o amor e o ódio, as grandes paixões e as infinitas contradições do ser humano em todos os tempos e circunstâncias, o que só se consegue através do que se deve chamar de poesia, não no sentido estreito e equivocado que é dado em nosso tempo a essa palavra, mas sim em seu mais profundo e primordial significado."
O romance inclui também o famoso Informe sobre cegos que as vezes foi publicado como peça separada, e que serviu de base para um filme. Se trata de um texto tortuoso que coloca o protagonista nu, ambiente infernal e opressivo, em uma história de pesadelo e paranóia, que transcorre nos sótãos e subterrâneos de Buenos Aires.
No ano de 1975 recebeu o Prêmio de Consagração Nacional da Argentina. Dois amos mais tarde recebeu na Itália o Prêmio Medici.
Por solicitude do presidente Raúl Alfonsín, presidiu entre 1983 e 1984 a CONADEP (Comição Nacional sobre o Desaparecimento de Pessoas), cuja investigação, publicada no livro Nunca Más, abriu as portas para o julgamento dos militares da ditadura argentina.
Em 1984 recebeu o Prêmio Cervantes. No ano de 1987 foi homenageado na França como Comandante da Legião de Honra. Dois anos mais tarde, em 1989, recebeu em Israel o Prêmio Jerusalém. No mesmo ano recebeu um Doutorado honoris causa da Universidade de Murcia, na Espanha.
No ano de 1991 recebeu um Doutorado honoris causa da Universidade de Rosario, na Argentina. A mesma honra lhe foi outorgada por parte da Universidade de Turín, na Itália, em 1995, mesmo amo em que morre seu filho Jorge em um acidente automobilístico.
Na atualidade, reside em Santos Lugares, Província de Buenos Aires, aonde se dedica somente a pintura, já que por proibição médica não pode nem ler nem escrever.
Textos autobiográficos
Não é possível realizar uma biografia de Ernesto Sabato sem mencionar o que Sabato disse de Sabato.
Sabato descreve sua estadia em Paris: "durante esse tempo de antagonismos, pela manhã me sepultava entre eletrômetros e provetas e anoitecia nos bares, com os delirantes surrealistas. No Dome e no Deux Magots, alcoolizado com aqueles enviados do caos e da transgressão, passávamos horas elaborando cadáveres refinados"
"Eu sou um anarquista! Um anarquista no sentido melhor da palavra. O povo crê que anarquista é aquele que põe bombas, mas anarquistas foram os grandes espíritos como, por exemplo, Leon Tolstoi". (Entrevista no diário O Tempo, Bogotá, 22 de junho de 1997)
Obras
Nós e o universo, 1945.
O túnel, 1948.
Homens e Engrenagens, 1951.
Heterodoxia, 1953.
O outro rosto do peronismo, 1956.
Sobre heróis e tumbas, 1961.
O escritor e seus fantasmas, 1963.
Tango, discussão e chave, 1963.
Aproximação à literatura de nosso tempo: Robbe-Grillet, Borges, Sartre, 1968.
Abaddón, o exterminador, 1974.
A cultura na encruzilhada nacional, 1976.
Defesas e Recusas, 1979.
Entre a Letra e o Sangue, 1988.
Antes do Fim, 1998.
A Resistência, 2000.
Espanha nos diários de minha velhice, 2004

LIVRO ESCOLHIDO -- EDITORA COMPANHIA DAS LETRAS

A RESISTÊNCIA

Em A resistência, na forma de cartas pessoais ao leitor, temas como a internet, a onipresença da televisão, o terrorismo, a intolerância religiosa, a mercantilização da arte, as novas formas de opressão social e a degradação da natureza são vistos pelo prisma da desumanização dos indivíduos.Com um olhar ao mesmo tempo lúcido e apaixonado, embasado na melhor tradição humanista do Ocidente, Sabato se recusa a aceitar passivamente o avanço da barbárie e o embotamento da sensibilidade do homem. Incita o leitor à resistência, propondo como armas o afeto interpessoal, a solidariedade com os mais fracos, a defesa da liberdade de pensamento e imaginação.Nestas páginas sinceras e tocantes decanta-se toda a sabedoria acumulada ao longo da rica existência desse ex-comunista e ex-surrealista, desse físico que trocou a ciência pela literatura, pela pintura e pela defesa dos direitos humanos. Apesar do tom sombrio do balanço, Sabato insiste na esperança, intuindo que estamos no limiar de uma nova mudança, desta vez em favor do homem.

ALI, TARIQ

TARIQ ALI

Tariq Ali é jornalista, escritor, historiador, cineasta e ativista político. Nascido em 1943 no Paquistão, atualmente vive na Inglaterra, onde colabora com diversos periódicos e é um dos editores da revista New Left Review. É especialista em política internacional e tem se destacado com análises sobre o Oriente Médio e a América Latina.
LIVRO ESCOLHIDO - BOITEMPO EDITORIAL

O PODER DAS BARRICADAS
A década de 1960 – e, dentro dela, o explosivo ano de 1968 – ainda hoje é referência em termos de mobilização da juventude, utopia, revolução de costumes e liberação da mulher. Há quarenta anos, jovens do mundo todo se manifestavam contra a Guerra do Vietnã e transformavam as relações pessoais estabelecidas pela moral conservadora. Em todos os cantos, lutavam contra o autoritarismo e a repressão com as armas que possuíam, questionando estruturas sociais e de poder por meio da arte, da música e do comportamento. Se esses anos de luta não conseguiram mudar o mundo como pretendiam seus protagonistas, com certeza imprimiram transformações significativas.O escritor paquistanês Tariq Ali viveu os anos 1960 intensamente, participando de acontecimentos políticos na Europa, na Ásia e nas Américas. Sua trajetória está relacionada aos episódios mais relevantes da década e é relatada em O poder das barricadas: uma autobiografia dos anos 60. O livro traça um panorama fundamental para a compreensão da avalanche de protestos que tomou conta do mundo durante o período.A edição original da obra é de 1987, jamais publicada no Brasil. A Boitempo se baseou na versão de 2005, revista e ampliada pelo autor. Tariq Ali preferiu desconsiderar críticas ao texto original sob o argumento de que “não se deve ajustar a História às necessidades do presente”. Partindo desse ângulo, o livro retrata o que autor chama de “tempos de esperança”, com sua diversidade e riqueza cultural e política. A versão ampliada conta ainda com uma entrevista com John Lennon e Yoko Ono feita por Tariq Ali, em 1971.O poder das barricadas: uma autobiografia dos anos 60 nos leva de Paris a Praga, passando por Hanói e Bolívia, com direito a encontros com figuras como Malcolm X, Bertrand Russell, Chu En-lai, Edward Said e Marlon Brando. O livro captura em detalhes o clima e a energia dos anos 1960, algo inesquecível mesmo para quem considera perda de tempo os acontecimentos do período. O sociólogo Emir Sader, responsável pela orelha do livro, sintetiza o impacto do texto: trata-se de “um grande elogio à militância política, que mostra a descoberta da rebeldia. Não se trata apenas de um livro de memórias, mas de uma introdução à política revolucionária, ao que significa ser militante”.

VIEIRA, JOHANES

JOHANES VIEIRA

LIVRO ESCOLHIDO - EDITORA T.MAIS.OITO

COMANDOS VERMELHOS DO BRASIL – DOS PORÕES AOS SALÕES

O livro traz o relato de Johanes Vieira (nome fictício) um homem que se diz um dos fundadores do Comando Vermelho, facção criminosa do Rio de Janeiro originada da Falange Vermelha no presídio da Ilha Grande, na década de 70.Se for uma obra de ficção, é melhor do que muitos romances. Se for verdade, se trata do livro de maior impacto a contar a história do Comando Vermelho. O autor está doente e recluso, e uma de suas exigências é que o livro fosse lançado antes de sua morte, por isso não houve tempo de verificar se as informações são verdadeiras.Da vida nos presídios ao dia-a-dia do tráfico. Da boca de fumo às grandes negociações com o crime organizado internacional. Do primeiro assalto a carro blindado ao seqüestro de Roberto Medina. "Comandos Vermelhos do Brasil" traz a visão de quem passou a vida no mundo do crime. Trata-se, portanto, de um relato muito mais intrínseco do que qualquer reportagem ou documentário sobre o assunto.Johanes consegue nos colocar bem ali "onde rola a parada", como ele mesmo diz. É quase como se estivéssemos dentro dos lugares que fizeram parte de sua vida: desde a favela e a prisão até as suntuosas mansões dos líderes do tráfico mundial. Do lixo ao luxo. Com a onipotência de quem pode mandar matar ou soltar como se fosse uma coisa trivial. Alternando relatos muitas vezes chocantes com críticas contundentes ao sistema carcerário e à classe política como um todo, este livro mudará a forma como são vistos o crime, a imprensa e a política do nosso país.Ao se acreditar na história, o leitor saberá que os criminosos que hoje ocupam as manchetes da mídia são “meros fichinhas” perto dos verdadeiros responsáveis pelos crimes no Brasil, que moram nas mansões acima de qualquer suspeita das principais cidades do País.

HUSTON, NANCY


NANCY HUSTON


Nancy Huston nasceu em 1953 em Calgary, Canadá. Filha de um casal de pesquisadores universitários, aos seis anos foi abandonada pela mãe, experiência que deixou marcas profundas na sua vida, e, inclusive, a fez optar pela literatura. Aos quinze anos se estabeleceu nos Estados Unidos com o pai. Em 1973, feminista, chegou a Paris e se engajou nos grupos pós-68, aderindo a seus ideais marxistas. Estreou na literatura em 1979, com um livro de ensaios. Em 1981, publicou seu primeiro romance, Les Variations Goldberg, pelo qual foi indicada ao Prêmio Femina. Seguiram-se outros dez, entre os quais os de maior sucesso são Cantique des plaines (1993) – que lhe trouxe renome internacional –, Instrument des ténèbres (1996), L’Empreinte de l’Ange (1998), Dolce Agonia (2001) e Marcas de Nascença (2006). Além de diversas premiações recebidas ao longo dos anos, em 2006 foi finalista do Prêmio Goncourt e vencedora do Prêmio Femina por Marcas de Nascença.
Fluente em francês e inglês, a autora escolhe a língua da escrita em função da ambientação do livro. No caso de Marcas de Nascença, a opção foi pelo inglês. Numa entrevista concedida à revista francesa Elle, a autora revela que os livros escritos em inglês são os que mais a tocam, provavelmente por ser sua língua materna. A autora também traduz seus próprios livros de uma língua à outra, utilizando esse processo para fazer ajustes na versão original, como em Marcas de Nascença, escrito originalmente em inglês e traduzido imediatamente para o francês pela autora. Nancy Huston é casada com o historiador, filósofo e lingüista búlgaro Tzvetan Todorov, com quem tem dois filhos.


LIVRO ESCOLHIDO - EDITORA L&PM


MARCAS DE NASCENÇA


“Um adulto nada mais é do que uma criança que sofreu.” Essa é a principal idéia por trás de Marcas de Nascença, o 11º romance de Nancy Huston, autora canadense radicada na França. Partindo de uma idéia singela e genial, a escritora conta a história de uma família marcada pelo desenraizamento, pelo dilaceramento da guerra e pela busca de identidade. E o faz de uma maneira originalíssima: por meio do olhar infantil, inocente e perspicaz de quatro crianças, numa narrativa que viaja por vários pontos do planeta, começando na Califórnia do ano de 2004 e terminando na Alemanha que, entre 1944 e 1945, está em vias de perder a guerra. Do garoto californiano no início do século XXI à menina alemã dos anos 1940, pouco há em comum além de uma marca de nascença hereditária. Mas, à medida que a narração avança, fica claro que há muito mais a unir os membros de uma família além dos laços meramente sangüíneos...
Marcas de Nascença é uma obra polifônica não apenas por ter quatro narradores, mas pela multidão de assuntos abordados: a educação infantil, o fascínio da violência, o exílio, a força e os limites da memória, os legados familiares, a incomunicabilidade das experiências traumáticas, as conseqüências do silêncio e da vergonha.
Nancy Huston, com seus personagens cativantes e profundamente humanos, seu olhar agudo de observadora, sua noção penetrante do detalhe, sua sabedoria e seu conhecimento do mundo, faz a crônica dessa família de origem judaica parecer uma sinfonia de dor e de compreensão sobre toda a humanidade. Entre passado e presente, Velho e Novo Mundo, no entrecruzamento da História com as histórias individuais, a autora demonstra um domínio narrativo como poucos nomes da literatura universal.
Um livro atualíssimo, comovente, bem-humorado, perturbador, depois do qual o leitor não será mais o mesmo. Contra a barbárie eleva-se este desconcertante e reparador romance no qual, com amor e fúria, Nancy Huston faz uma ode à memória, à lealdade, à resistência e ao entendimento entre os homens.

NASSAR, RADUAM

RADUAM NASSAR


Raduan Nassar nasceu em Pindorama, São Paulo, a 27 de novembro de 1937. Seu nascimento se deu pelas mãos da parteira Rosa Conca de esquina da rua 15 de Novembro com a rua 1º de Maio, onde vivia a família Nassar.
Iniciou seus estudos primários no Grupo Escolar de Pindorama, em 1943, onde recitava poesias nas datas comemorativas. No ano seguinte, 1944, Raduan entra em uma fase de grande fervor religioso, e se tornaria, dois anos depois, coroinha.
Em 1947, inicia o curso ginasial do Colégio Estadual de Catanduva, na cidade de mesmo nome e começa a trabalhar com o pai. Dois anos depois, a família de Raduan muda-se para Catanduva a fim de tornar mais fácil o acesso das crianças da casa aos estudos. Em 1950, durante uma aula da quarta série ginasial, Raduan é acometido de uma convulsão ? a primeira de uma série de sete que se ocorreriam por mais dois dias seguidos. Diante de um diagnóstico irresponsável e alarmista, seus pais decidem transportá-lo para São Paulo, onde Raduan será tratado por um neurologista.
É a partir dessa data que o adolescente expansivo e de memória excelente passa a ser quieto e introvertido. Raduan abandonaria os estudos neste ano para só retomá-los no ano seguinte, 1951.
No mesmo ano é que o escritor começa a ler clássicos da literatura brasileira. Sua irmã Rosa, licenciada em Letras Clássicas pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, passa a ser a professora da escola em que Raduan estuda e também a prestar consideráveis progressos no aprendizado de língua portuguesa do irmão, em casa.
Em 1953, com o pai dos Nassar tendo em vista uma maior comodidade para que os filhos continuem os estudos, a família Nassar muda-se para o bairro de Pinheiros, em São Paulo, mais exatamente na rua Teodoro Sampaio, número 2173, local onde o pai de Raduan abre um armarinho, o Bazar 13. O Bazar 13 do pai dos Nassar se tornaria, anos mais tarde, uma empresa de expressão comercial em São Paulo.
Em 1955, Raduan ingressa na Faculdade de Direito do Largo São Francisco e no curso de Letras Clássicas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. Abandona, no segundo semestre do mesmo ano, o curso de Letras e conhece, no curso noturno de Direito, Hamilton Trevisan que acabaria apresentando-o a Modesto Carone, de quem Raduan se tornaria grande amigo.
O três amigos têm todos pretensões literárias e muitas de suas conversas são a respeito de literatura. Em 1957, Raduan ingressaria no curso de Filosofia da USP. Era o sexto dos irmãos Nassar a freqüentar a mesma faculdade, à época funcionando no antigo prédio situado à rua Maria Antonia, no centro de São Paulo.
Em 1959, decidido a se dedicar integralmente à literatura, Raduan abandona o curso de Direito no último ano e passa a freqüentar apenas o curso de estética na Faculdade de Filosofia. No ano seguinte, morre seu pai, João Nassar, então paralítico, depois de convalescer durante oito anos de grave doença. Cristão ortodoxo e agricultor num Líbano sob domínio otomano, o pai de Raduan foi o responsável pela primeira formação política dos filhos, pois estes cresceram ouvindo os relatos sobre aquela presença colonial.
Em 1961, deixa os negócios da família e viaja para o Canadá a fim de encontrar-se com duas tias, irmãs de seu pai, que moravam em Matane. Depois, segue para os Estados Unidos como imigrante, onde permanece por apenas dois meses. É também em 1961 que escreve o conto Menina a Caminho.
Volta ao Brasil no ano seguinte e retoma o curso de Filosofia na USP e o conclui um ano depois, em 1963. Em 1964, Raduan viaja para Alemanha com o intuito de estudar alemão. Fica sabendo do golpe militar de 31 de março através das cartas que recebe dos amigos. Comunica então ao Departamento de Pedagogia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP sua decisão de não assumir a assistência da cadeira de Psicologia Educacional no campus de São José do Rio Preto daquela instituição. Decide também abandonar o curso de alemão e viajar para o Líbano, onde conhece a aldeia em que seus pais viveram, retornando, em seguida, ao Brasil.
De volta ao Brasil, Raduan passa a ser criador de coelhos na chácara Taipi, em Cotia, São Paulo. Seu sócio no empreendimento, Ernst Weber se dedicaria com ele ao jornalismo, alguns anos mais tarde. Em 1967, abandona a carreira de criador de coelhos e funda, ao lado dos irmãos, o Jornal do Bairro, no qual conta com a participação de seu amigos, sobretudo, de José Carlos Abbate, que assume as funções de redator-chefe da publicação, onde Ernst Weber se iniciou no jornalismo. Apesar de ser um jornal regional, o semanário se dedicava uma boa parte do seu conteúdo jornalístico à cobertura de fatos da política nacional e internacional.
Em 1970, Raduan Nassar escreve a primeira versão da novela Um Copo de Cólera, e os contos O Ventre Seco e Hoje de Madrugada. Dois anos depois, participa junto com seus familiares de uma leitura do Novo Testamento. As leituras duram quase que o ano todo. Ao mesmo tempo, ele retoma as leituras do Velho Testamento e do Alcorão (esta iniciada em 1968). Todo esse estudo religioso irá, mais tarde, se refletir de modo acentuado em Lavoura Arcaica.
Conhece sua futura companheira, a professora Heidrun Brückner, do Departamento de Línguas Germânicas da USP, em 1973, e, no ano seguinte, deixa o Jornal do Bairro por discordar de algumas mudanças editoriais. Nessa época, o semanário tinha uma tiragem de 160 mil exemplares.
Começa a trabalhar exclusivamente no livro Lavoura Arcaica, chegando a trabalhar mais de 10 horas por dia no texto. Depois de terminado o romance, Raja, irmão de Raduan, oferece uma cópia dos originais ao professor de psicologia Dante Moreira Leite, o qual encaminha os originais à Livraria José Olympio Editora, no Rio de Janeiro, que, em 1975, publica o livro com um ajuda financeira feita pelo próprio Raduan.
Em 1976, o livro ganha o prêmio Coelho Neto para romance, da Academia Brasileira de Letras, o Prêmio Jabuti e a Menção Honrosa da Associação Paulista de Críticos de Arte. Dois anos depois, a Livraria Cultura Editora publica Um Copo de Cólera, pela Alfaguara, de Madri.
Em 1982, a mesma Alfaguara lança a edição espanhola de Lavoura Arcaica, e, em 1984, a Editora Gallimard, da França, lança Lavoura Arcaica e Um Copo de Cólera. Nesse mesmo ano, 1984, Raduan compra a fazenda Lagoa do Sino, em Buri, sudeste do Estado de São Paulo e passa a se dedicar integralmente à produção rural, deixando claro, em entrevista concedida ao caderno Folhetim do jornal Folha de São Paulo, que abadonara a literatura. No mesmo número o Folhetim traria publicado o conto O Ventre Seco.
Raduan ainda teria seus livros e contos publicados em alemão, pela editora Suhrkamp, na década de 80 e o relançamento dos mesmos seria feito pela Companhia das Letras aqui no Brasil. Em 1994, o livro Menina a Caminho sai numa edição não-comercial em comemoração aos 500 títulos da Companhia das Letras.
Em 2000, Raduan não quis receber, das mãos de FHC, a Ordem do Mérito Cultural, condecoração sempre entregue com muita pompa para dezenas de intelectuais. Adota essa posição por ser um contundente crítico da política cultural do governo e também da política agrícola.


LIVRO ESCOLHIDO - EDITORA COMPANHIA DAS LETRAS

UM COPO DE CÓLERA

"... e estava assim na janela, quando ela veio por trás e se enroscou de novo em mim, passando desenvolta a corda dos braços pelo meu pescoço, mas eu com jeito, usando de leve os cotovelos, amassando um pouco seus firmes seios, acabei dividindo com ela a prisão a que estava sujeito, e, lado a lado, entrelaçados, os dois passamos, aos poucos, a trançar os passos, e foi assim que fomos diretamente pro chuveiro.""O corpo antes da roupa", afirma o personagem de Um copo de cólera ao narrar o que acontece numa manhã qualquer, depois de uma noite de amor, quando a aparente harmonia entre ele e sua parceira se rompe de repente. Tensa, contundente, a linguagem de Um copo de cólera alcança tal intensidade e vibração que faz desta narrativa uma obra singular da literatura brasileira, um clássico dos nossos tempos.

LIVRO ESCOLHIDO - EDITORA COMPANHIA DAS LETRAS

LAVOURA ARCAICA

 
Lavoura Arcaica é um texto em que se entrelaçam o novelesco e o lírico, por meio de um narrador em primeira pessoa –André – o filho encarregado de revelar o avesso de sua própria imagem e, conseqüentemente, o avesso da imagem da família. É sobretudo uma aventura com a linguagem: além de fundar a narrativa, a linguagem é também o instrumento que, com seu rigor, desorganiza um outro rigor, o das verdades pensadas como irremovíveis. Lançado em dezembro de 1975, foi imediatamente considerado um clássico, “uma revelação, dessas que marcam a história da nossa prosa narrativa”, segundo o professor e crítico Alfredo Bosi.

MELVILLE, HERMAN

HERMAN MELVILLE

Herman Melville, filho de Allan e Maria Gansevoort Melville, nasce a 1 de Agosto de 1819, em Nova Iorque. Após o colapso do negócio de importação da família, em 1830, e a morte do seu pai, passados dois anos, Melville interrompe os estudos. Em 1837, quando se torna professor de instrução primária perto de Pittsfield, Massachusetts, já havia trabalhado num banco, na quinta de um tio e no negócio do irmão. Embarcará, dois anos mais tarde, como marinheiro na Marinha Mercante, numa viagem que o levará até Liverpool. Em 1840, regressado aos EUA, vagabundeia por vários empregos, para embarcar, no ano seguinte, no baleeiro Acushnet, numa viagem que durará quatro anos. Em Outubro de 1844 desembarca em Boston, após múltiplas peripécias no mar e em terras distantes. Junta-se à família, começando a escrever as suas “aventuras”. Os seus dois primeiros livros, Typee (1846) e Omoo (1847) transformam-no num autor célebre e, apesar de Mardi (1849) ser um insucesso, é bem sucedido com Redburn, publicado no mesmo ano. A White-Jacket (1850) sucede-se Moby Dick (1851) e Pierre; or the Ambiguities (1852), novos fracassos editoriais. Em 1853 começa a escrever para revistas (a sua situação financeira nunca fora famosa) com Bartleby The Scrivener: A Story Of Wall Street, editado na publicação Putnam’s Monthly Magazine.A Israel Potter (1855) segue-se uma viagem à Europa e à Terra Santa. As passagens mais poderosas deste diário de viagem encontram-se em harmonia com o seu último romance, The Confidence-Man (1857). Em 1866, com Battle-Pieces and Aspects of the War, Melville inicia uma longa série de poesia, abandonando virtualmente a prosa. Nesse mesmo ano, consegue trabalho na alfândega de Nova Iorque. Nos anos seguintes escreve Clarel: A Poem and Pilgrimage in the Holy Land (1876), John Marr and Other Sailors (1888) e Timolean and Other Poems (1891). Nos finais de Setembro de 1891, morre, esquecido, em Nova Iorque. Só em 1924 será publicado Billy Budd, Sailor, obra que Melville terá deixado incompleta.

LIVRO ESCOLHIDO - EDITORA COSAC NAIFY

BARTLEBY, O ESCRITURÁRIO

Para ler a nova edição de "Bartleby, o Escrivão" - uma história de Wall Street, o leitor começa pelo desafio de ter de cortar, uma a uma, as vinte páginas não refiladas do livro. Só assim poderá libertar, aos poucos, este personagem enigmático da ficção moderna que, no dizer de Gilles Deleuze, desafia toda a psicologia e a lógica da razão. A sua famosa fórmula de resistência às ordens do advogado-patrão - Acho melhor não - e, mais tarde, de recusa ao próprio trabalho de escrivão e copista para o qual foi contratado, desperta uma sucessão tragicômica de acontecimentos. A cada resposta evasiva de Bartleby abre-se a fresta para a entrada do insólito nas atitudes e sentimentos despertados no dono do escritório, nos colegas de trabalho e até mesmo nas vizinhanças de Wall Street.

PROUST, MARCEL

MARCEL PROUST

Marcel Proust nasceu em Auteuil, subúrbio de Paris, em 1871. De saúde frágil, teve uma infância cheia de cuidados. Durante a adolescência, viveu nos Champs-Élysées, em Paris, onde o ar saudável lhe ajudava a diminuir os efeitos da asma. Em 1891, ingressou na Faculdade de Direito da Sorbonne; preparou-se para seguir a carreira diplomática, da qual desistiu para dedicar-se à literatura. Seus primeiros escritos datam de 1892, quando, com alguns amigos, fundou a revista Le Banquet. A seguir, passou a colaborar em La Revue Blanche, freqüentando ao mesmo tempo os salões aristocráticos parisienses, cujos costumes forneceram material para sua obra literária, iniciada com Os Prazeres e os Dias (1896). A morte da mãe, em 1905, fez dele herdeiro de uma fortuna razoável. Com a saúde cada vez mais debilitada, Proust acaba isolando-se dos meios sociais para dedicar-se exclusivamente à criação de Em Busca do Tempo Perdido, publicado entre 1913 e 1927, em oito volumes: No Caminho de Swann, À Sombra das Raparigas em Flor, O Caminho de Guermantes (1 e 2), Sodoma e Gomorra, A Prisioneira, A Fugitiva e O Tempo Redescoberto. Seu romance é tido por consenso como um dos maiores não apenas do século passado, mas de toda a história da literatura. Proust morreu em Paris, em 1922.

OBRA ESCOLHIDA - EDITORA GLOBO (1961)

EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO ( L! )
Quando Marcel Proust morreu, em novembro de 1922, ele já havia inscrito há alguns meses a palavra "fim" abaixo de seu manuscrito de Em Busca do Tempo Perdido. Os três últimos volumes do romance - que soma ao todo sete - ainda por publicar, pedem retoques; embora A Prisioneira estivesse praticamente acabada, nós continuamos a ignorar onde deveria terminar Albertina Desaparecida e iniciar O Tempo Redescoberto, que só será publicado em 1927. Mas, já em 1909 Proust havia construído a estrutura de seu edifício: a qualquer momento em que a morte o surpreendesse, Em Busca teria oferecido a chave ao leitor.
Tudo começou em 1908, quando ele esboça um ensaio apresentado sob a forma narrativa e dirigido contra a crítica literária como a concebia Sainte-Beuve (1). Proust passa então, aos olhos de seus contemporâneos, por um espírito cultivado, refinado, até um pouco esnobe; ele é conhecido por ter publicado uma encantadora crônica, Os Prazeres e os Dias (1896), alguns artigos e traduções do crítico de arte e sociólogo britânico John Ruskin, mas não se sabe que ele tem guardado em suas gavetas, por não ter encontrado um desfecho, um longo romance (2) cujo herói chama-se Jean Santeuil.
Por volta do verão de 1909, o Conde de Sainte-Beuve metamorfoseia-se em romance. Imaginando que seu herói, convidado para passar uma manhã na casa da princesa de Guermantes, ele tem a revelação do tempo em suas duas espécies (tempo interior, graças a uma série de reminiscências, e tempo exterior, graças aos rostos envelhecidos dos convidados da princesa), Proust transforma em desfecho romanesco a conclusão de seu ensaio; mas este já estava carregado de cenas e personagens imaginários, a ponto de não se perceber mais o fio do discurso crítico. Em suma, o projeto, ao invés de se perder, ampliou-se.
Fascinado com a forma de se vestir de Madame Swann e com a cultura de seu marido (No Caminho de Swann), incomodado com as maneiras vulgares de jovens ciclistas em férias à beira-mar (À Sombra das Raparigas em Flor), ávido por convites para os salões onde são trocadas futilidades (No Caminho de Guermantes), torturado por amores que não valem a pena (A Prisioneira e Albertina Desaparecida), o herói de Em Busca - que se confunde muito mais com Proust do que o narrador que diz "eu" - traz em si uma obra-prima. Seguindo o método de Sainte-Beuve, quem suspeitaria?
A salvação através da arte
Sua admiração pelas pinturas de Elstir, ou pela música de Vinteuil, não parecem pesar muito diante dessa preguiça que aflige sua avó. Mas, essa "preguiça" é antes de tudo um temor reverencial diante da obra à qual ele se destina.
O herói do romance reflete seu criador: embora tenha sido um jovem apressado e ávido por sucesso, Proust teria a todo custo finalizado seu Jean Sauteuil e, em 1908, ter-se-ia prestado menos atenção, nos salões do Faubourg Saint-Germain em Paris ou no dique de Cabourg na Normandia, a seus ares "preciosos" do que a seu talento e seu sucesso literários. Em resumo, sua reputação de frivolidade era o inverso de uma alta exigência. Ela valeu-lhe, em 1912, a famosa recusa pela editora da Nova Revista Francesa (NRF) do primeiro volume de Em Busca, No Caminho de Swann: folheando o manuscrito, o escritor André Gide entreviu nele, como se esperava, histórias de duquesas e, vítima da "síndrome de Sainte-Beuve", expôs -se ao que chamou mais tarde de o maior remorso de sua vida, a ter passado ao largo do sentido de uma obra em gestação.
Do momento em que foi concebido o desfecho de Em Busca até a sua morte, ou seja durante treze anos (1909-1922), Proust multiplicou retratos e peripécias, reorientou ou amplificou algumas intrigas, inflou suas frases com comparações a fim de ligar o individual ao geral. Depois de acreditar, no início, que seu romance não ultrapassaria as mil páginas, ele acabou escrevendo mais de três mil. Até mesmo essa proporção faz sentido. Quando o caminho percorrido pelo herói encontra finalmente o tempo (que lhe permite reunificar seu eu) ele evoca com efeito o caminho de Perceval na conquista do Graal. Ora, se a natureza do Graal, tanto quanto a da obra do herói de Em Busca continua nos sendo mal conhecida, os esforços e o tempo que eles custaram dão-nos pelo menos uma idéia.
Como nos romances de cavalaria, alguns dos protagonistas que Proust coloca em cena param no meio do caminho. Swann, por exemplo, teria preferido enriquecer sua vida com belezas prontas, ao invés de uma beleza que ele próprio criasse. Ele pertence à categoria dos estetas, na qual seus contemporâneos classificavam Proust, enquanto este escrevia contra eles.
Em Balbec, que provavelmente evoca Cabourg, o herói de Em Busca aprende que as velas de regata, ou os vestidos das moças não atrapalham, aos olhos de um pintor impressionista, o espetáculo do mar eterno. O mundo exterior só possui o interesse de permitir uma alquimia do eu. Ao lhe restituir toda uma parcela de sua infância graças à memória involuntária, o sabor de uma pequena madeleine tem a mesma importância para o autor que o caso Dreyfus (3), ou os bombardeios aéreos de Paris.
Já em O Lírio no Vale, de Balzac, os ombros de Madame de Mortsauf possuíam mais importância do que os Cem Dias (4) e, em a Educação Sentimental, de Flaubert, a venda dos móveis de Madame Arnoux ofuscava, aos olhos de Frédéric, o golpe de Estado de Luiz Napoleão Bonaparte em 2 de dezembro de 1851. Já que o mundo se refrata numa consciência, o romance oferece sempre precedência ao frívolo em detrimento do essencial.
Mas, enquanto para os dois mestres do romance do século XIX a paixão amorosa causava essa inversão de valores, para Proust o amor era apenas uma doença. Seu herói deve senti-lo para refinar sua sensibilidade, mas apenas a obra de arte justifica que se reabilite o que se acreditava inicialmente insignificante. Essa desmistificação do amor é a base da subjetividade total de Em Busca. Que Swann ou o herói não cheguem a saber se Odette ou Albertine os traem faz parte de uma análise tradicional do ciúme; a modernidade de Proust vem do fato de que a questão, para ele, está fadada a permanecer em suspenso.
Como em um quadro impressionista, Em Busca tremula de incertezas. Proust contribui em suma para uma revolução literária comparável à que ocorre em seu tempo na pintura, e que realizarão de maneira mais radical os pintores não figurativos. Provando que o interesse de um livro reside menos na realidade que reflete do que na visão singular que expressa, ele inaugura o que Nathalie Sarraute - uma das líderes do Novo Romance (5) - chamará de a "era da suspeita", onde a suspeita é muito menos a de personagens romanescos e invejosos do que a do leitor, convidado a decifrar os arcanos de um estilo.

Pierre-Louis Rey
(Universitário )

1. Teoria determinista que consiste em explicar uma obra literária a partir do contexto histórico e social no qual está inscrito seu autor.
2. Manuscrito de mil páginas, que Proust nunca organizou e cujos pedaços foram publicados de acordo com a ordem cronológica da vida do herói.
3. Caso político-judiciário que abalou a França de 1894 a 1906.
4. Episódio do efemerísssimo retorno ao poder do imperador Napoleão Iº em 1815.
5. Expressão surgida nos anos 50 para designar o conjunto de escritores que colocam em questão a existência formal do romance, lançando-se na aventura do significante, a da escrita que se confronta a ela mesma.

GUIMARÃES ROSA, JOÃO

JOÃO GUIMARÃES ROSA

Grande renovador da prosa de ficção, João Guimarães Rosa marcou profundamente a literatura brasileira. Nascido na cidade de Cordisburgo (MG), formou-se em Medicina na cidade de Belo Horizonte (1930). Após clinicar algum tempo nos confins do Estado mineiro, onde aprendeu os segredos e as falas do sertão que marcariam sua obra, entrou para a carreira diplomática (1934), indo servir em Hamburgo, Baden-Baden, Lisboa, Bogotá e Paris. Dividido entre a literatura e a carreira diplomática, fez longas viagens pelo interior de Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso e Bahia, anotando os maneirismos de fala de jagunços, vaqueiros, prostitutas e beatas colhidos em conversas. Assim revolucionou a prosa brasileira e foi aclamado pelo público e pelos críticos ao escrever seu primeiro livro de contos: Sagarana (1946). Combinando o erudito com o arcaico e com as expressões populares, transformou a semântica, subverteu a sintaxe e apresentou ao leitor quase um novo idioma para contar as histórias da gente do sertão. Mais tarde publicou Corpo de Baile (1956), um conjunto de sete novelas, e o livro mais polêmico da literatura brasileira do século XX – Grande Sertão: Veredas (1956). Na construção da personagem principal (Riobaldo), fundiu o cotidiano com o requintado, o regional com o erudito, o folclore com a cultura livresca, o real com o fantástico e superou o regionalimo ao compor, numa narrativa épica/mítica, a própria condição humana. Ainda vieram Primeiras Histórias (1962), reunindo 21 contos curtos, e Tutaméia (1967), conjunto de 40 contos. Faleceu no Rio de Janeiro, três dias depois de tomar posse na Academia Brasileira de Letras. Posse esta que sempre adiara, temendo a emoção de vestir o fardão da Academia.

LIVRO ESCOLHIDO - EDITORA NOVA FRONTEIRA

GRANDE SERTÃO VEREDAS (L!)

Grande Sertão : veredas é uma narrativa em primeira pessoa e quem tem a palavra é Riobaldo, que conversa com um suposto interlocutor. Ex-jagunço, chefe de bando, andarilho do sertão como cangaceiro, ele relata suas aventuras e desventuras ao mesmo tempo em que se questiona a respeito da existência de Deus e do diabo.Riobaldo ao querer se vingar da morte do amigo Joca Ramiro, chefe dos jagunços, assassinado à traição por Hermógenes, ex-companheiro de bando, ele faz um pacto com o diabo para destruir o traidor.Riobaldo torna-se líder do bando vingativo; até que os dois bandos se encontram e entram em confronto. Reginaldo, amigo de Riobaldo e por quem ele sente uma estranha atração que o perturba, entra em combate com Hermógenes e ambos morrem.Nesse momento Riobaldo descobre que Reginaldo é na verdade Diadorim, filha de seu amigo Joca Ramiro, que até então viveu disfarçada de homem. Amargurado, Riobaldo abandona a vida de jagunço e vai viver como um pacato fazendeiro. Confuso e decepcionado com a descoberta de que Reginaldo é na verdade Diadorim, seu grande amor ele desiste das aventura em bando e se recolhe para fazer algumas reflexões sobre a existência. Confuso pela dúvida da existência ou não do diabo e a possibilidade de fazer um pacto com ele, Riobaldo passa a querer entender o sentido e os mistérios da vida. Os fatos narrados por Riobaldo no romance não seguem uma ordem cronlógica, obedecem sim as lembranças que mais marcaram a sua vida. O suposto interlocutor nunca toma a plavra, por isso a narrativa se assemelha a uma reflexão em voz alta, ou seja, como se ele falasse sozinho, querendo em sua solidão entender os mistérios da existência e principalmente compreender o que induz as pessoas a cometerem as más ações. Riobaldo reve-la-se uma personagem diferente à medidade que tem a necessidade de ir além das aprências, e que faz questão de saber mais para entender o mistério da ações humanas.
EXCERTOS
1) Enfim, cada um o que quer aprova, o senhor sabe: pão ou pães, é questão de opiniães...O sertão está em toda parte. (pg 24)
2) Quem muito se evita, se convive, (pg. 24)
3) Viver é negócio muito perigoso... (pg. 26)
4) O diabo na rua, no meio do redemunho... (pg.27)
5) Tudo é e não é... Quase todo mais grave criminoso feroz, sempre é muito bommarido, bom filho, bom pai, e é bom amigo-de-seus-amigosl Sei desses. Só quetem os depois - e Deus, junto. Vi muitas nuvens. (pg. 27)
6) O senhor não duvide - tem gente, neste aborrecido mundo, que matam só para ver alguém fazer careta... eh, pois, empós, o resto o senhor prove: vem o pão,vem a mão, vem o são, vem o cão. (pg. 28)
7) ... passarinho que se debruça - o vôo já está pronto! (pg. 29)
8) Quase que a gente não abria a boca; mas era um delem que me tirava para ele -o irremediável extenso da vida. (pg. 45)
9) Tem coisa e cousa, e o ó de raposa... (pg. 47)
10) Mas ciúme é mais custoso de se sopitar do que o amor. Coração de gente - o escuro, escuros. (pg.52)
11) Falar com o estranho assim, que bem ouve e logo longe se vai embora, é um segundo proveito: faz do jeito que eu falasse mais mesmo comigo. (pg. 55)
12) ...toda saudade é uma espécie de velhice. (jtg. 57)
13) O amor, já de si, é algum arrependimento. (pg. 58)
14) Ah, se eu pudesse mesmo gostar dele — os gostares... (pg. 66)
15) Confiança - o senhor sabe - não se tira das coisas feitas ou perfeitas; eía rodeia é o quente da pessoa, (pg. 72)
16) "Riobaldo, a colheita é comum, mas o capinar é sozinho..." (pg. 74)
17) Eu sei: nojo é invenção, do “Que-Não-Há”, para estorvar que se tenha dó. (pg.75)
18) Deus existe mesmo quando não há. Mas o demónio não precisa de existir para haver - a gente sabendo que eíe não existe, aí é que eíe toma conta de tudo. (pg.
76)
19) Nem para se definir calado, em si, um assunto contrário absurdo não concede seguimento, (pg. 77)
20) Digo: o real não está na saída nem na chegada: eíe se dispõe para a gente é no meio da travessia. (pg. 80)
21)... me senti pior de sorte que uma pulga entre dois dedos. (pg. 82)
22) Cavalo que ama o dono, até respira do mesmo jeito. (pg. 89)
23) O senhor deve de ficar prevenido: esse povo diverte por demais com a baboseira,dum traque de jumento formam tufão de ventania. Por gosto de rebuliço. Querem-porque-querem inventar maravilhas glorionhas, depois eíes mesmos acabam temendo e crendo. Parece que todo mundo carece disso. Eu acho, que.(pg. 90)
24) Um homem consegue intrujar de tudo; só de ser inteligente e valente é que muito não pode. (pg. 92)
25) Tem horas em que penso que a gente carecia, de repente, de acordar de alguma espécie de encanto. As pessoas, e as coisas, não são de verdade! E de que é que, a miúde, a gente adverte incertas saudades? Será que, nós todos, as nossas almas já vendemos? Bobeia, minha. E como é que havia de ser possível? Hem?! (pg. 100)
26) Sujeito muito lógico, o senhor sabe: cega qualquer nó. (pg. 108)
27) Vingar, digo ao senhor, é lamber, frio, o que outro cozinhou quente demais. O demónio diz mil. Esse! Vige mas não rege... (pg. 110)
28) O mal ou o bem, estão é em quem faz; não é no efeito que dão. (pg. 113)
29)Tem horas antigas que ficaram muito mais perto da gente do que outras, de recente data. (pg. 115)
30) O que induz a gente para más ações estranhas, è que a gente está pertinho doque é nosso, por direito, e não sabe, não sabe, não sabe! (pg. 116)
31) Aquele encontro nosso se deu sem o razoável comum, sobrefalseado, como do que só em jornal e livro é que se lê. Mesmo o que estou contando, depois é que eu pude reunir relembrado e verdadeiramente entendido - porque, enquanto coisa asssim se ata, a gente sente mais é o que o corpo a próprio é: coração bem batendo. Do que o que: o real roda e põe diante. - “Essas são as horas da gente. As outras, de todo tempo, são as horas de todos" — me explicou o compadre meu Quelemém. Que fosse como sendo o trivial do viver feito uma água, dentro dela se esteja, e que tudo ajunta e amortece — só rara vez se consegue subir com a cabeça fora dela, feito um milagre: peixinho pediu. Por que? Diz-que-direi ao senhor o que nem tanto é sabido: sempre que se começa a ter amor a alguém, no ramerrão, o amor pega e cresce é porque, de certo jeito, a gente quer que isso seja, e vai, na idéia, querendo e ajudando; mas, quando é destino dado, maior que o miúdo, a gente ama inteiriço fatal, carecendo de querer, e é um só facear com as surpresas. Amor desse, cresce primeiro; Brota é depois. (pg. 155)
32) A gente vive, eu acho, é mesmo para se desiludir e desmisturar. A semvergonhice reina, tão leve e leve pertencidamente, que por primeiro não se crê no sincero sem maldade. (pg. 162)
33)... que a assoprada na vaidade é a alegria que dá chama mais depressa e mais a ar. (pg. 163)
34) Os afetos. Doçura do olhar dele me transformou para os olhos de velhice da minfia mãe. (pg. 164)
35) O senhor sabe: preto, quando é dos que encaram de frente, é a gente que existe que sabe ser mais agradecida. (pg. 165)
36) O saber de uns, a morte de outros. (pg. 166)
37) Sozinho sou, sendo, de sozinho careço, sempre nas estreitas horas - isso procuro. (pg. 169)\
38) Artes que morte e amor têm paragens demarcadas. No escuro. (pg. 174)
39) ...amigo, para mim, não é um ajuste de um dar serviço ao outro, e receber,...amigo, para mimf é só isto: é a pessoa com quem a gente gosta de conversar, doigual o igual, desarmado. O de que um tira prazer de estar próximo. Só isto,quase; e os todos sacrifícios, (pg. 196)
40) Mas a natureza da gente é muito segundas-e-sábados. Tem dia e tem noite,vesáveis, em amizade de amor. (pg. 196)
41)Naquele dia eu tardava, no meio de sozinha travessia. (pg. 200)
42) Mas eu fui sempre um fugidor. Ao que fugi até da precisão de fuga. (pg. 200)
43) Medo de errar é que é a minha paciência. (pg. 201)
44) Um ainda não é um: quando ainda faz parte com todos. (pg. 201)
45) Acho que o espírito da gente é cavaío que escolhe estrada: quando ruma para tristeza e morte, via não vendo o que é bonito e bom. (pg. 202)
46)...só aos poucos é que o escuro é claro. (pg. 207)
47)Medo, não, mas perdi a vontade de ter coragem. (pg.215)
48) A morte é corisco que sempre já veio. Ânsias, ao em que bola me vinha goela arriba, do arrocho grosso, imposto, que às vezes em lágrimas nos olhos se transforma. A bobagem.... (pg. 231)
49) Como é eu que posso com este mundo. A vida é ingrata no macio de si; mas transtraz a esperança mesmo do meio do fel do desespero. Ao que, este mundo é muito misturado... (pg.237)
50) Deus a gente respeita, do demônio se esconjura e aparta...Quem é que pode ir divulgar o corisco de raio do borro da chuva, no grosso das nuvens altas? (pg. 237)
51)...que a gente carece de fingir às vezes que raiva tem, mas raiva mesma nunca se deve de tolerar de ter. Porque, quando se curte raiva de alguém, é a mesma coisa que se autorizar que essa própria pessoa passe durante o tempo governando a idéia e o sentir da gente; o que isso era falta de soberania, e farta bobice, e fato é. (pg. 253)
52) Se não, o senhor me diga: preto é preto? Branco é branco? Ou: quando é que a velhice começa, surgindo de dentro da mocidade? (pg. 262)
53) Quem vai em caça, perde o que não acha... (pg. 293)
54)A gente estava desagasalhados na alegria, feito meninos. (pg. 299)
55) Sertão é isto: o senhor empurra para trás, mas de repente ele volta a rodear o senhor dos lados. Sertão é quando menos se espera. (pg. 302)
56) Tem trechos em que a vida amolece a gente, tanto, que até um referver de mau desejo, no meio da quebreira, serve como beneficio. (pg. 303)
57) Um homem de tão alta bondade tinha mesmo de correr perigo de morte, mais cedo mais tarde, vivendo no meio de gente tão ruim... (pg. 314)
58) Atravessaram por nós, sem a gente perceber, como a noite atravessa o dia, da manhã à tarde, seu pretume dela escondido no brancor do dia, se presume, (pg. 318)
59A vida é vez de injustiças assim, quando o demo leva o estandarte.(pg. 319)
60) Sofrimento passado é glória. É sal em cinza. (pg. 319)
61) Semeei minha presença dele, o que da vida é bom eu delo entendia. (pg. 319)
62) Para ódio e amor que dói , amanhã não é consoto. (pg. 320)
63) Mas liberdade - aposto- ainda é só alegria de um pobre caminhozinho, nodentro do f erro de grandes prisões. 'Tem uma verdade que se carece de aprender,do encoberto, e que ninguém não ensina: o beco para a liberdade se fazer. Souum homem ignorante. Mas, me diga o senhor, a vida não é cousa terrível? (pg.323)
64) Só se pode viver perto de outro, e conhecer outra pessoa, sem perigo de ódio, se a gente tem amor. Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura. (pg. 327)
65) Eu sendo água, me bebeu; eu sendo capim, me pisou; e me ressoprou, eu sendo cinza. Ah, não! Então, eu estava ali, em chão, em a-cú acôo de acuado?! (pg. 349)
66) Para as coisa que há de pior, a gente não alcança fechar as portas. (pg. 369)
67) Mas, mente pouco, quem a verdade toda diz. (pg. 380)
68) O que brotava em min e rebrotava: essas demasias do coração. Continuando, feito um bem, que sutil e nem me perturbava, porque a gente guardasse cada um consigo sua tenção de bem-querer, com esquivança de qualquer pensar, do que a consciência escuta e se espanta; e também em razão de que a gente mesmo deixava de excogitar e conhecer o vulto verdadeiro daquele afeto, com seu poder e seus segredos; assim é que hoje eu penso. (pg. 389)
69) A gente só sabe bem aquilo que não entende. (pg. 394)
70) O que mais digo: convém nunca a gente entrar no meio de pessoas muitodiferentes da gente. Mesmo que maldade própria não tenham, eles estão comvida cerrada no costume de si, o senhor é de extremos, no sutil o senhor sofreperigos. Tem muitos recantos de muita pele de gente. Aprendi dos antigos.Oque assenta justo é cada um fugir do que bem não se pertence. Parar o bomlonge do ruim, o são longe do doente, o vivo longe do morto, o frio longe doquente, o rico longe do pobre. (pg. 405)
71) O maior direito que é meu — o que quero e sobrequero -: é que ninguém tem odireito de fazer medo em mim! (pg. 410)
72) "Vida" é noção que a gente completa seguida assim, mas só por lei duma idéiafalsa. Cada dia é um dia. (pg. 414)
73) Eu tinha medo de homem humano. (pg. 422)
74)... um dia é todo para a esperança, o seguinte para a desconsolação. (pg. 426)
75) Do contrario, não tinna sincero jeito possível: porque ele era de raça tão persistente, no diverso da nossa, que somente a estância deíe, em frente, já media, conferia e reprovava. (pg. 430)
76) Uma coisa, a coisa, esta coisa: eu somente queria era – ficar sendo! (pg. 436)
77) Parente não é o escolhido - é o demarcado. (pg. 444)
78) Dentro de mim eu tenho um sono, e mas fora de mim eu vejo um sonho — umsonho eu tive. O fim de fomes. (pg. 451)
79)Aqui digo: que se teme por amor; mas que, por amor, também, é que a coragem se faz. (pg. 472)
80) Um outro pode ser a gente; mas a gente não pode ser um outro, nem convém...(pg. 476)
81)A vida inventa! A gente principia as coisas, no não saber por que, e desde aí perde o poder de continuação - porque a vida é mutirão de todos, por todos remexida e temperada. (pg. 477)
82) O que nesta vida muda com mais presteza: é lufo de noruega, caminhos de antaem setembro e outubro, e negócios dos sentimentos da gente. (pg. 478)
83) Só quando se tem rio fundo, ou cava de buraco, é que a gente por riba põeponte...(pg. 479)
84) "Minha Senhora Dona: um menino nasceu — o mundo tornou a começar.... u- e saí para as luas. (pg. 484)
85) Digo ao senhor. meu medo é esse. Todos não vendem? Digo ao senhor: o diabo não existe, não há, e a ele eu vendi a alma... Meu medo é este. A quem vendi? Medo meu é este, meu senhor: então, a alma, a gente vende, só, é sem nenhum comprador... (pg. 501)
86) O que meus olhos não estão vendo hoje, pode ser o que vou ter de sofrer no diadepois d’amanhã. (pg. 534)
87) Dói sempre na gente, alguma vez, todo amor achável, que algum dia sedesprezou... (pg.538)
88) Tirante que não pedi conselhos. Mas não houvesse: mas, pedir conselho - não ter paciência com a gente mesmo; mal hajante... (pg. 548)
89) Riobaldo, hoje-em-dia eu nem sei o que sei, e, o que soubesse, deixei de saber oque sabia... "(pg. 549)
90) Só que não entendo quem se praz com nada ou pouco; eu, não me serve cheirar a poeira do cogulo - mais quero mexer com minhas mãos e ir ver recrescer a massa. (pg. 560)
91) Mas eu sabia que era o minuto e não era a hora. (pg. 566)
92)... e para sentir que Diadorim não era mortal. E que a presença dele não me obedecia. Eu sei: quem ama é sempre muito escravo, mas não obedece nunca de verdade... (pg. 568)
93)E, Diadorim, que vinha atrás de mim uns metros, quando virei o rosto vi meu sorriso nos lábios deíe. (pg. 579)
94) O senhor escute meu coração, pegue no meu pulso. O senhor avista meus cabelos brancos... Viver- não é? - é muito perigoso. Porque ainda não se sa6e. Porque aprender-a-viver é que é o viver, mesmo. (pg. 601)
95)”Tu não acha que todo o mundo é doido? Que um só deixa de doido ser é em horas de sentir completa coragem ou o amor. Ou em horas em que consegue rezar?"(pg. 603)